
Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada
Fibrilações - Ana Hatherly





Qual é o preço do afecto e com que moeda devemos pagá-lo? O que é mais duro, uma carícia ou termos de nos esvaziar para a conseguir? Ao longo do tempo, acabamos inevitavelmente por descobrir que algumas moedas pesam muito mais do que o que nos deram em troca delas. Perder na troca e habituar-se a essa perda é a lição que Martina Iranco, a protagonista deste romance, aprende desde a infância.
(…)
Uma mulher nua fala da nossa urgência vital para conseguir o afecto, de como aprendemos a conquistá-lo e de como nos podemos perder à sua procura; fala da pele como lugar onde se escreve o próprio desenraizamento, de nos apercebermos de que, afinal, brincar às escondidas é uma forma de viver com as mãos vazias.
(…)
Uma Mulher Nua – Lola Beccaria

Princípios necessários para calar

Se escrevo não é para procurar a minha voz
A MULHER QUE CRIOU A TERRA






Do Prefácio
Há uma escrita de mulheres. Confusa e embaraçada como elas, quando é uma escrita de mulheres. Eu atrevo-me a dizer que o supremo estilo das mulheres é o estilo místico; porque, então, tudo o que toca ao amor é a mais absurda visão e um acordo de profecias.
Mas, no mais das vezes, as mulheres escrevem segundo o modelo que obtiveram dos homens. Para eles, as mulheres têm de ser sensuais, complicadas, motivo de reflexão, submetidas ao obstáculo da reflexão. Mas não são assim. Os melhores livros de amor são feitos com o que os homens ignoram sobre as mulheres. Ignoram quase tudo.
Agora começa a haver uma literatura feminina, uma forma de a mulher se interrogar; mas ainda só balbucia e, quando tem mais sucesso, é quando se aproxima da anedota sexual de Margarida de Navarra.; quando parece à vontade no papel de marafona e espreitadora de alcovas. De repente, tudo pode mudar. Como quando Filomena (o rouxinol da fábula, porque Filomena é rouxinol e canta para tirar ao tempo o seu significado de acção, de discurso) intervém na página 75: “ Apesar disso, narradora, como te chamas na vida real? Eu? Mariana”.
Mariana é o símbolo, e Ana, sua metade, em vez do seu duplo, completa o enigma. Ambas pressentem a natureza duma mulher, mas não vão senão até à tentação de contar essa verdade que só pertence às mulheres. Todavia – haverá uma verdade feminina? Como se perguntássemos se as mulheres têm alma, se não são feitas de humor frio, impróprio das actividades intelectuais, como se disse. Não é tão absurdo como parece. A mulher é lançada para desertos onde a alma morreria de sede; onde a mente ficava sufocada se lhes conhecesse a solidão. Nada há de mais solitário que uma mulher; por isso é tão disponível – porque não sente profundamente a autoridade de nada no mundo. Ela não constrói termo de comparação. Quando é edificante e santa, isso não resulta exemplar; é uma experiência da solidão. Nunca é sujeita a nenhum poder; apieda-se, não ama. Sofre, mas não é vítima.
Filomena Cabral, no seu livro Tarde de mais Mariana, está perto de ausentar-se da tradicional literatura feminina, que é um rebuçado de ovos dos conventos de clarissas ou é uma apologia do amor para senhores velhos, com verdes amostras de libido. “Mereceste mil vezes a solidão” – diz Mariana. E diz:” por ti me prendo ao mundo”, com lucidez que até está a mais no texto elaborado. A verdade está aí, como uma gota de chuva no ar seco e na paisagem formidavelmente limpa e serena. A mulher disse a sua verdade: “por ti me prendo ao mundo”. Pelos olhos do homem ela vê, pelo espírito do homem ela deseja e ama. Mas não é ela quem ama nem deseja.
Não sei, realmente não sei, donde veio a mulher com o seu humor frio que a escola dos teólogos situa bem longe dos domínios da alma. Não há redacção definitiva sobre a mulher, enquanto não houver uma autêntica literatura feminina. Será que é tarde de mais Mariana? Será que já era tarde no tempo dourado e tempo de amor em que o homem foi criado?
Agustina Bessa-Luís
29 de Maio de 1985
Tarde de mais Mariana, de Filomena Cabral






(…)
nota: este seria o livro que eu levaria comigo para uma ilha deserta.
«O fim dos dias é não fazer nada. A inércia contemplativa é preferível a tudo. Viva o subterrâneo! Conquanto eu inveje o homem normal, até à última gota da minha bílis, quando o vejo tal como é, renuncio a ele (embora não deixe de o invejar). Não! Não! O subterrâneo vale mais! Lá, ao menos, pode-se… cá estou eu a mentir outra vez! E minto porque sei, tão claramente como «dois e dois são quatro», que não é o subterrâneo que vale mais, mas qualquer outra coisa a que aspiro, sem conseguir descobrir. Vá para o inferno o subterrâneo!
O meu tio retirou a máquina fotográfica do seu estojo, fez experiências contra o sol, fechou os olhos, tapou os olhos com a pala do boné, andou às arrecuas, para os lados, correu, ajoelhou, e depois, finalmente, mandou-me que o olhasse.
Numa máquina projectada para poupar futuro,
«Uma barragem contra o pacífico poderia ser, também ainda hoje (1988), apenas uma visita guiada aos escombros das propagandas coloniais com que se encheram as paredes da Europa no fim do séc. XIX e na primeira metade do séc. XX para os deserdados e os desiludidos dessa mesma Europa, os que simplesmente procuravam (onde?) o seu quinhão da herança de espaço e mundos novos, ou tão só um lugar seu, onde viver e trabalhar, um canto da planície, entre a floresta e o Pacífico, só com o sol por cima e hectares de terra fértil a perder de vista, onde apenas haveria que produzir, criar uma família (e, naturalmente, enriquecer) sem problemas nem políticas, sem a sensação de desespero e asfixia das metrópoles; para isso, segundo Marguerite Duras, bastava a embriaguez causada pelas leituras de Pierre Loti.
«As pessoas nem poderiam calcular que dor era aquela. Às vezes, ah, quão perto lhe parecia estar do alvo. Quão perto do instante do combate. E então, curiosamente, sentia-se, ou julgava sentir-se, como os pugilistas. Era assim: os dedos das mãos pediam exercício, pediam uso, até pediam violência. E punha-se a esticá-los e a flecti-los, ou a bater com a mão fechada na concavidade da outra mão, como se estivesse nas vésperas de subir ao ring para uma disputa decisiva, contra um último e impiedoso adversário. Corria à mesa de trabalho, afastava os papéis intrusos – perante si apenas a tal dúzia de folhas impecáveis que queriam ser violadas. Vamos a isto, André. Insiste, André. Chora de raiva, se for preciso. Escreve uma vez, outra, mais outra, emenda, rasga, destrói, recomeça – não te deixes vencer. Isto é um combate, André, o teu combate. Sobe ao ring para te medires com o mais duro dos adversários – tu próprio, desencantado e incrédulo.»
O artista é o criador de coisas belas.
As mulheres livres e libertadoras correm com os lobos. Galgam o mundo montadas nas suas ilhargas esguias e frementes, febris e lustrosas sob os seus dedos, que ficam a cheirar a rosmaninho e a cedro. Refrescam-se nas suas sombras, aninham-se nas suas grutas e vivem nos negrumes matizados de luz das florestas espessas: respirando as folhas raiadas, bebendo o orvalho cintilante, devorando os frutos proibidos, quando descobrem a árvore do conhecimento.
Há no mundo uma falha. Os poentes são labaredas roxas: resquícios de escarlate, dois, três jactos violetas que se estendem pelo céu - uma maravilha quimérica. A primavera prolonga-se: superabundância de flores nas árvores, espiritualidade na matéria, como se as árvores fossem morrer. Mais flores, mais poentes onde o ouro e o roxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de cores, que pressagiam catástrofes, e um ruído apagado, esquisito, insuportável dentro de nós próprios, que só comparo ao som de uma borboleta esvoaçando contra as paredes de um vaso.É a morte que faz falta à vida.
HÚMUS - Raul Brandão