
Définitivement ils sont deux petits arbres
Seuls dans um champ léger
Ils ne se sépareront plus jamais.
A ALIANÇA
Eles são para sempre duas pequenas àrvores
Isoladas numa planície leve
Nunca mais se separarão.
Paul Éluard – Últimos Poemas de Amor
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(…) de repente, o caixão estremece, uma sombra levanta-se e caminha, sonâmbula, sai do quarto pela porta desenhada na parede.
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(…)
Todo o longo verão eu repassava em mente aquele dia em que minha mãe, de dedos ágeis, ficara concertando duma velha garnacha de meu mestre uma sotaina de ordinando. Porque já estava decidido que iria cursar teologia na velha cidade do Bispo Azul. A despeito de minha surda repugnância, tive de render-me; rendi-me à força das coisas e, não menos, às boas razões de meu mestre.
- Libório – dissera-me ele – a vida é curta e a pobreza longa e negra. A grande questão é menos viver a nosso gosto, que viver sem custo. Quem está contente da sua dita? Não creias que as coisas revistam na prática a rigidez que se lhes inculca em teoria. O homem é pecador; porque não havia de ser natural e, portanto, escusável pecar o sacerdote? Não, não receies pecar racionalmente, sempre que a máquina de viver para aí torça. Entra para a carreira eclesiástica com ânimo de ser cumpridor, mas de modo algum a ser um jansenista. As leis têm a máxima tensão para que delas ressume algum domínio. Assim na Igreja; muito rigor, muita ameaça, mas tudo aparente, tudo invencioneiro! Deus é melhor do que o pintam os teólogos; fez a vida, sabe que se não pode vergar o curso à vida. Se outra relutância não tens que a de ver a tua existência mutilada dos raros gozos com que é lícito contar um leigo, não te detenhas. Nosso Senhor fez-nos o coração de molde a sentir o que é bom e a amar o que é belo. O que é preciso é não ser escandaloso, porque não é a paixão que deslustra o homem, mas o escândalo. Pode-se muito bem ser cauto sem pedir a Satanás a capa da hipocrisia. Muitos dos padres do meu tempo são honrados pais de família, e ninguém lhes pede contas de tal humanidade.
Estávamos no presbitério, à sombra das Carvalhas, e meu mestre, inadvertidamente, pôs-se a riscar com uma varinha o chão moído. Na fronte eu lia-lhe a serena filosofia do homem que divisa a tumba a seus pés.
- E olha – tornou ele – eu sinto, tu não sentes? o vento de tempestade que sopra esta terra de dez séculos. Longe vá o agouro, mas ia jurar que tristes dias vão amanhecer para ela, tão estimada que foi, noutros tempos, do Senhor. E verás, as cidades hão-de converter-se em charcos de desordem e de chacina. Por isso, mais vale o remanso da aldeola, onde os homens e as ideias sempre são menos feras que as feras! Deus mandou-nos viver, vivamos! Ou, noutros termos, fujamos da dor e da morte!
Com este e outros discursos e com o argumento esmagador de nossos poucos teres, preparou meu ânimo a requerer admissão ao Seminário. Minha moral havia-se amolecido e eu pensava que, ungido de ordens maiores, não sendo honesto cobiçar uma D. Estefânia, seria razoável amar uma Celidónia.
(…)
Aquilino Ribeiro – A Via Sinuosa





desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
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Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
Tiago Araújo - Livre Arbítrio


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Maria Gabriela Llansol - Amigo e Amiga (curso de silêncio de 2004)

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Regressas pelos espelhos abraçado à névoa de um tempo breve, aproximas-te da superfície, contemplo o rosto emergente, nenúfar lançado no vórtice de círculos concêntricos; recordo um perfume.
Necessário seria conheceres evanescências incrustadas na porta sólida da memória: e sempre me detenho no umbral. Como explicar a recordação de ti, de nós sabemos sempre pouco, nada de nossas auras, eflúvios, deles nos falariam outros quase sempre mudos ou desinteressados. A avidez, atenta, com dedos longos arrepanha, puxa para si, sortilégios abandonados por complacência, selecciona-os, guarda-os como avarento para possibilitar-se pequenas trocas, comércio mesquinho com os que experimentam fome de nós. Por ela te recordo, olho, inebrias, inquietas.
Os espelhos de nada sabem na superfície lisa.
Ter-se-ão agitado quando mergulhamos neles as nossas imagens enlaçadas, retido o nosso olhar? Dois espelhos venezianos, distanciados de uma parede a outra parede, trocaram-se imagens em jogos de eternidade, nada mais. A fragilidade habita os espelhos, em nós se enreda, por isso te digo, Amado, o tempo urge, passa, goteja e engana. Pensa clepsidras, relógios de sol, analisa atento urgências e desvarios, medo e fuga: submete-os.
Aguardarei, Amado, a hora em que os espelhos parecem negros e fundos como cisternas, e experimentarei o queixume, talvez regresse o eco de palavras escutadas em ressonâncias doces, e sofro a tentação de destruí-los para ver-te em mil reflexos. Lanternas na noite, doem-me os olhos na intermitência: se o desespero me ergue as pálpebras, a tristeza neles me pousa os dedos de seda.
A claridade vai alterando o cenário: vejo a cadeira onde sentado sorriste; ajoelhada descalcei-te.
(que dizer da Morte para além do luto, dos sinais visíveis ou risíveis, dela nada sei, sim do silêncio-dique, de torrentes de palavras sempre desviadas de seu curso, nunca em ti desaguando.)
Atravesso desertos, Amado, não os que atravessas; assim, o desencontro.
Filomena Cabral - AMATUS

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Paixão inenarrável plena de sustos e refúgios. Em vão, direi cardumes iridescentes e velozes, o emaranhado de vibráteis remos minúsculos em seus flancos. A dor indescritível escorada na ausência, a beleza intoxicadora dos sentidos, o véu húmido em teus olhos, a linha inapelável dos lábios. Separam-nos muros de gaze onde esfacelaríamos os dedos, porventura ausentes, ávidos ou tristes, assustados na presença da mão. Inocularia em ti a surpresa do gesto, a delícia de deixar-me escorrer pelos teus contornos, tomada de assalto por nuvens graníticas de ilusões sedimentadas e frustradas, endurecidas pelo tempo redutor.
Poderia abandonar-te junto de nardos, confundido em sua brancura ou outra cor, em evanescências múltiplas, e nelas incluiria o odor de um corpo adormecido tingido de desencanto, o rosto enfeitado de cristais inesperados.
Como rio surdo à própria passagem, devoras a distância fluida e contornas pequenas ilhas solitárias, afagando-as e afogando-as na brandura irresistível de abraços densos. Teimo em divisar os pés dos deuses, sempre os escondem entre floras estranhíssimas; dos lábios talvez lhes pendam luas pequenas em quarto minguante mostradas no avesso de si.
Gostaria de narrar a dor, desmontar o medo, contudo cavalgo em seu dorso: as mãos esfaceladas claudicam.
Flutuo no silêncio, imponderável, na pretensão do sopro, diviso-me submersa no desejo, esbracejante e frágil, ansiosa como afogado: aguarda-me uma praia e não sei se distinguiria os teus ombros idênticos a fluidas muralhas, ausentes de besteiros e despidas de pequenas ervas tenras e frágeis, trama de tapete irresistível.
Tudo o mais seria paixão inenarrável, desabitada, com as marcas de todas as dores e prazeres, deixadas por outros nómadas, sedentos de paisagem como tu. Assim eu.
Os deuses entenderam atribuir aos homens a dor como alimento indispensável, mesmo que pelo seu contrário. O prazer transborda, afoga e desaparece, absorvido pela presença insubstituível do corpo, pele, ou na ausência cantada, vibrátil, forjada em presságios: assim o regresso fatigado, ou insofismável refúgio.
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Filomena Cabral – Elegia para um corpo adormecido

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A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo – como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar.
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A História de Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach


«Eram tão lindos, tão suaves os dias femininos ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.
na suite EPICUREDevia contentar-me de ter areia escondida
nas pregas da carne e de o não saber.
À noite, passo a mão espalmada por toda a cama
e encontro vento e mar no meu lençol.
sempre sorrio desse facto.
Não consigo ainda deitar-me e ficar feliz
sabendo isto tudo.


“O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno. Não basta porém compreender; trata-se de tentar ir até ao fim de todas as galerias obscuras, de procurar abrir algumas portas – quer dizer, no fundo, tentar sobreviver. O nosso universo de cimento e de ramificações eléctricas não é simples. Quanto mais se pretende explicar, mais ele se nos escapa. Viver por dentro, hermeticamente fechado, seguindo os impulsos mecânicos, sem procurar trespassar estas muralhas e estes tectos, é mais do que inconsciência; é expormo-nos ao perigo de sermos pervertidos, mortos, tragados. Sabemos hoje que não há verdades; apenas há explosões, metamorfoses, dúvidas. Bem entendido, queremos abalar. Mas para onde? Todos os caminhos são parecidos, todos são um regresso ao próprio indivíduo. É pois preciso procurar outras viagens.”
Da abertura:
“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma re-leitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem con-vive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
(…)
Do capítulo 2 – nós somos águias!
(…)
“Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar num filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…
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Leonardo Boff – A águia e a galinha (uma metáfora da condição humana)