do lugar dos outros

do lugar dos outros

sábado, 31 de maio de 2008

Um lugar não é apenas um vestígio de uma antiga sombra
que caiu no nosso olhar. O que agora se vê, se esquece, e longe
fica, atinge a margem mais secreta, é uma metamorfose extrema, dissipante
do tempo e da penumbra, límpido refúgio a que se assoma insuspeito e perdido.

É então que a noite vem como um destino

as mãos cansadas estremecem.


Máquina de Relâmpagos – Jorge Velhote

quarta-feira, 28 de maio de 2008

(…)
Quando eu te via vir ao longe, a serra até tremia. Os calhaus fugiam-me à frente dos pés com as minhas corridas, rebolavam que era uma graça, e as silvas nem me tocavam. Se era tarde, eu nem dava pelo sol se pôr. Eras tu que me alumiavas. Tu andavas depressa, mas eu ainda achava que era devagar. Aparecias aqui, sumias-te ali, e de repente dávamos cara com cara.
Tu tão alto, eu tão baixinha! Às vezes ficávamos só a olhar um para o outro. E eu virava a cara. As mulheres sentem tanto, tanto! Quando elas viram a cara é quando têm mais que dizer.

(…)

Solidão - Irene Lisboa

domingo, 25 de maio de 2008

(…)

É claro que podia não acontecer. Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. Compreendo agora que embora fique sentada no meu quarto, a envelhecer, muito tristemente, sozinha, tenho que viver com esse conhecimento. O telefone pode tocar, esta noite, ou amanhã: já não importa.

(…)

Olhem para mim – Anita Brookner

terça-feira, 13 de maio de 2008

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


O Encantador de Palavras – Manoel de Barros

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Num bar, um homem mata uma mulher. Mas este gesto só existe pelo fascínio que exerce noutro homem e noutra mulher que nem sequer testemunharam directamente e cujo significado não alcançam senão talvez inventando-o através da estranha embriaguez que a partir de então se apodera deles. Arrancados por aquele grito de agonia à ordem quotidiana, a essa vida «tranquila» onde já não há lugar para a esperança, o homem e a mulher encontram-se dia após dia no bar onde tudo se passou. Falam, imaginam que essa mulher quis ser morta pelo homem que amava, e o sentimento que nasce entre eles reencontra, assume esse desejo. Talvez venham a reviver a mesma história de morte e amor. Talvez… mas nem mesmo o romancista tem a certeza. Quem pode dar um nome ao que se passou entre esses desconhecidos, ao que se passa agora entre Anne Desbaresdes e Chauvin? Quem pode saber a forma que o destino dará a essa cumplicidade indecifrável? Talvez nem tenham outra história do que a de ter, por um instante, trocado essas palavras, posto as mãos uma sobre a outra, encostado as suas bocas uma única vez. Tudo está suspenso na expectativa de um acontecimento que não chega, de um acontecimento inimaginável. Tudo se verga ao peso de uma paixão que não sai de si própria, que não sabe sequer o seu nome.

Gaetan Picon (Mercure de France)

Moderato Cantabile – Marguerite Duras

domingo, 4 de maio de 2008


Y.K.CENTENO
(Portugal, 1940)

O que fazem as mães?
abrem caminho
mas abrem caminho
cegamente
não conhecem o túnel
o destino
a sombra que as enreda
mais à frente

Perto da Terra, Presença, Lisboa, 1974

quinta-feira, 1 de maio de 2008





















(…)

Mas a vida é assim…
Esta tristeza no mundo, este tédio e esta infelicidade podem mudar se as pessoas souberem que estão a pedir o impossível.
Não peça o impossível
Descubra a lei da existência e siga-a.

(…)

Este mundo é só uma peregrinação – de grande significado, mas não é um sítio para se pertencer, não é um sítio para se fazer parte. Seja como uma folha de lótus.

(…)

Uma pessoa que sabe estar só nunca está isolada. Só as pessoas que não sabem estar sós é que se sentem isoladas.

(…)

Amor, Liberdade e Solidão - OSHO

quinta-feira, 24 de abril de 2008






Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada


Fibrilações - Ana Hatherly

domingo, 20 de abril de 2008






















MULHERES AMALDIÇOADAS

Como gado pensativo sobre a areia deitadas
Dirigem o olhar para o horizonte dos mares
Seus pés se procuram, suas mãos se aproximam
Doces langores as percorrem e calafrios amargos

Umas amam as longas confidências do coração
No fundo dos bosques onde marulham os rios
Vão desfolhando o amor das infâncias receosas
Entalham a carnação verde dos arbustos jovens

Outras, como irmãs, caminham lentas e graves
Entre rochedos repletos de aparições
Onde Santo Antão viu surgir como lavas
Os seios nus e purpúreos das suas tentações

Outras há que no côncavo mundo dos velhos antros
Pagãos iluminados por resinas que se liquificam
Te chamam para que acalmes suas febres uivantes,
Ó Baco, mestre bálsamo dos remorsos primitivos.

Outras unem a espuma dos prazeres à dor das lágrimas,
Nos bosques sombrios e nas noites solstícias,
Trazem vergastas escondidas sob as longas vestes
Ostentam no peito as insígnias dos seus suplícios

Virgens, demónios, monstros e mártires – dizem.
Sois, de facto, o desprezo forte da realidade visível,
Procurais o infinito, devotas e sátiros,
ora no meio do choro, ora no meio dos gritos

Vós que no vosso inferno minh´alma seguiu,
Pobres irmãs, amo-vos tanto como vos lamento,
Tendes dores sem excesso, uma sede insaciável
E corações repletos de um amor intenso

As Flores do Mal – Charles Baudelaire

sexta-feira, 18 de abril de 2008























“ Saio deste livro de Rita Cerdeiros com a sensação de que estes nomes cruzados e estes episódios em tessitura mantêm uma dolorosa e sensível relação com a vida. Com a vida de todos nós. Quem lê e quem ama o que lê tem sempre a tineta de procurar referências de autores, de estabelecer paralelismos comparativos entre este e aquele. Em Rita Cerdeiros, neste livro de Rita Cerdeiros, estão, subjacentes, um conhecimento cultural e uma sabedoria das coisas que têm de advir, necessariamente, de encontros e correspondências com a dor e com o júbilo. Todas as personagens de “As Hortênsias Brancas e as Bicicletas” relevam de contradições por vezes dilacerantes, mas, sem excepção, há nelas uma nota comum: a procura da felicidade.
Com extremo pudor, Rita Cerdeiros não declama essa procura: sugere-a; no-lo diz que a condição humana tem como objectivo ser feliz e que o seu trajecto é a história infindável, e nunca cumprida, desse desejo.
O eu permanentemente exposto neste belíssimo romance não constitui um mero estratagema literário; é, ceio, a possibilidade oferecida de o texto não tombar num fácil sentimentalismo derrotista. Será um livro triste? Talvez. E nesse registo está, eventualmente, a sua componente mais importante. Melhor do que ninguém disse-o, num verso admirável, Carlos de Oliveira: “A tristeza é o vinho da vingança.” Rita Cerdeiros não opõe, umas contra as outras, as personagens e os sentimentos que de elas evolam e evoluem. O texto fala, mansamente, discretamente, em surdina, nas razões poderosas do coração, nas tremendas variações de sentido, num universo de imagens forçosamente indiciário de certos extractos sociais.
Gosto muito deste livro. Pelos motivos aduzidos e, também, porque segue o princípio estético que recusa a arte como instrumento de piedade ou de clemência. Porque recusa a arte, neste caso a literatura, como um objecto útil com objectivos de utilidade. São retratos interiores, distorcidos e erectos, claros e opacos, que funcionam como medianeiros de um particular sentido concreto.
Depois, “As Hortênsias Brancas e as Bicicletas” tratam o leitor como adulto lúcido e sensível. Quero dizer: fornece ao leitor a ampla possibilidade de, ele próprio, reconstruir o texto. Porque cada leitor e todos os leitores estão nos livros. Nos livros de qualidade, como é o caso.”
Baptista-Bastos
As Hortênsias Brancas e as Bicicletas - Rita Cerdeiros

segunda-feira, 14 de abril de 2008






















O amor eterno

É quando a morte salta de dentro da árvore,
como o pássaro inesperado da noite, que recordas
o que viveste. Não te prendas à respiração.
ao contar do pulso, às pequenas matemáticas de que
o tempo de homem depende. A memória que deixares
está para além dele; e algo de ti permanecerá,
mesmo que o não saibas, nalgum canto secreto,
no riso ou no choro de quem te lembrar.

Ao teu lado, enquanto as raízes da árvore
tomam conta do teu peito, todas as sombras
se juntam. No entanto, é com essa que te amou,
ou com o riso límpido que te inundava os
ouvidos, com a primeira luz de uma antiga
manhã, que podes vencer a noite. Mesmo
que os teus olhos se fechem, ou que uma
súbita brancura se apodere da tua alma.

Ela seguir-te-á no corredor de areia onde
as últimas gaivotas esperam a maré; e
diz-te: «porque perdeste a tua vida? A
que inúteis deveres cedeste a felicidade? Por
que não me seguiste, até ao leito do rio
onde os amantes se juntam?» a ausência das
suas mãos desce pelo teu corpo, nesse
último instante, como um áspero vento.

Cartografia de Emoções - Nuno Júdice

quarta-feira, 9 de abril de 2008






















Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.

Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!


Explicação das Árvores e de Outros Animais - Daniel Faria

sábado, 5 de abril de 2008



Qual é o preço do afecto e com que moeda devemos pagá-lo? O que é mais duro, uma carícia ou termos de nos esvaziar para a conseguir? Ao longo do tempo, acabamos inevitavelmente por descobrir que algumas moedas pesam muito mais do que o que nos deram em troca delas. Perder na troca e habituar-se a essa perda é a lição que Martina Iranco, a protagonista deste romance, aprende desde a infância.
(…)
Uma mulher nua fala da nossa urgência vital para conseguir o afecto, de como aprendemos a conquistá-lo e de como nos podemos perder à sua procura; fala da pele como lugar onde se escreve o próprio desenraizamento, de nos apercebermos de que, afinal, brincar às escondidas é uma forma de viver com as mãos vazias.
(…)

Uma Mulher Nua – Lola Beccaria

quinta-feira, 27 de março de 2008

















VIDA ESCURA

Tu nunca entenderás o que se passa
Dentro de mim… nem queiras entender!...
Se a formosura é toda a tua graça,
Sê formosa, que é esse o teu dever.

Não és feliz? Não sei o que te faça!
Mas que pensarás tu, se te disser
Que eu sou mais venturoso na desgraça
Do que tu na alegria o podes ser?!

Que nos importa estar na vida sós,
Mercê da falha de uma criatura?!
O que é preciso é não falharmos nós.

Não tentes entender-me o coração…
Só podem ver na minha vida escura
Olhos acostumados à paixão.


Fausto Guedes Teixeira – O Meu Livro (2ª parte)

domingo, 23 de março de 2008

Princípios necessários para calar

1. Só devemos deixar de estar calados quando temos alguma coisa a dizer que valha mais do que o silêncio.
(…)
3. o tempo de calar deve ser o primeiro por ordem; e nunca saberá falar bem aquele que não tiver aprendido antes a calar-se.
(…)
7. Quando se tem uma coisa importante a dizer há que prestar uma atenção especial: devemos dizê-la para nós próprios e, após esta precaução, dizê-la outra vez para que não tenhamos que nos arrepender quando já não formos senhores de reter o que declarámos.
(…)
13. Por mais tendência que se tenha para o silêncio, devemos sempre desconfiar de nós próprios; e se se sentir demasiado desejo de dizer uma coisa, tal será muitas vezes motivo suficiente para nos determinar a já não dizer.
(…)

Joseph Antoine Toussain, abade Dinouart (1716-1786), eclesiástico “mundano” e polígrafo, escreveu sobre os mais diversos temas, sobretudo acerca das mulheres. Em 1746, publicou Le Triomphe du Sexe que lhe valeu a excomunhão.



Joseph Antoine Toussain – A Arte de Calar

quarta-feira, 19 de março de 2008






















MENINAS

As meninas são todas como eu:
A guardar astros que serão bordados,
A recolher os olhos deslumbrados
Depois duma viagem pelo céu.

E vestem blusas para esperar a tarde
Que há-de surgir ao fundo da vereda
E crispam dedos de sonhar a seda
Que a tarde trouxe e na cantiga arde.

Fincam braços no chão do parapeito
E debruçam o corpo para a lua
E temem vultos negros pela rua
E sentem fogo a iluminar-lhe o peito.

E deitam-se nas camas encantadas
E olham luar correndo nas campinas
E são felizes porque são meninas
E porque a vida as vai fazer mudadas.


Antologia Poética - Natércia Freire

domingo, 16 de março de 2008























- A minha mão recusa-se a escrever um novo livro. Você substituí-la-á.
A sua mão direita abandona a secretária sobre a qual repousava, ergue-se na tua direcção: os dedos tremem num esforço para se fecharem sobre a palma, em vão. Uma gaivota paralisada, que mantém por instantes o seu voo hesitante e vai depois esconder-se no bolso das calças brancas.

Donafugata - J. M. Laclavetine

sexta-feira, 14 de março de 2008


O PONTO

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.


Poemas- Reinaldo Ferreira

segunda-feira, 3 de março de 2008

Se escrevo não é para procurar a minha voz
a minha voz está em toda a parte embora não a ouça
É sempre precisa uma palavra como quem acende uma lâmpada
mesmo que seja apenas para iluminar uma página branca

Talvez só o leitor descubra a terra das palavras
e a voz que não é a minha como a voz do outro
Só ele talvez sinta a ferida que em mim não dói
porque escrever é sempre ir além do que se sente ou não

Não escrevo para ascender ou mergulhar no fundo
mas para evitar uma queda ou atolar-me num charco
Se o mundo é composto de apelos sufocados e vertiginosas linhas
quando o escutamos nada mais ouvimos do que o rumor da ausência
e não sabemos se ela é a dimensão do silêncio
ou a lentidão alheia do deserto


As Palavras - António Ramos Rosa

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

(…)
Raul queria provar o seu amor. Para isso decidiu praticar um crime. Todos o condenam, decerto. No entanto, o que ninguém pode negar é que a sua prova, embora de um egoísmo atroz, não fosse a mais concludente, a maior prova de amor, como lhe chamava. «Só se ama por interesse. Não se ama um corpo disforme». Ele possuía uma criatura ideal; pois bem, destruiria toda a sua beleza. O seu amor não diminuiria… pelo contrário: morto o corpo, amaria a alma só com a sua alma.

(…)

Loucura… - Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008



















«Quantas vezes não me tenho aproximado dos outros para me distanciar de mim?
Quero encontrar-me naquilo que me dispersa como se a unidade se atingisse pela sobreposição de todos os contrários. Quero encontrar-me naquilo que me une e só me reconheço naquilo que me mortifica.
A duração não se compõe da soma de todos os instantes mas na perspectiva duma única fidelidade.»

«Cada um de nós compõe-se sobretudo daquilo que não sabe, daquilo que nunca viu. Os homens são como pedaços de memória: definem-se pela ausência.»

No Devagar Depressa dosTempos - Marcelo Duarte Mathias

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A MULHER QUE CRIOU A TERRA
(Mito da Criação)

No início não existia terra para se viver, mas lá em cima, no grande azul, habitava uma mulher sonhadora. Uma noite sonhou com uma árvore coberta de rebentos brancos, que iluminava o céu quando as suas flores se abriam, mas que trazia uma terrível escuridão quando elas se voltavam a fechar. O sonho assustou-a, de modo que foi ter com os sábios homens velhos que viviam com ela, na sua aldeia no céu, e contou-lhes.
«Puxem esta árvore mais para cima», implorou-lhes, mas eles não entendiam. Tudo o que faziam era escavar à volta das raízes, tentando arranjar espaço para haver mais luz. Então a árvore caiu no buraco que eles fizeram e desapareceu. Depois disso, deixou de haver luz, apenas escuridão.
Os homens velhos começaram a ter medo das mulheres e dos seus sonhos. Era dela a culpa da luz se ter ido para sempre.
Então puxaram-na até ao buraco e empurraram-na. Sentiu-se a cair, para o fundo, em direcção ao grande vazio. Debaixo dela não existia nada para além de uma terrível quantidade de água. Esta estranha mulher sonhadora do grande azul, certamente teria ficado desfeita em mil bocados, não fosse um peixe-águia que veio em seu socorro. As suas penas formaram uma almofada que permitiu à mulher uma aterragem suave por cima das ondas.
Entretanto, o peixe-águia não conseguia sozinho mantê-la. Ele precisava de ajuda. Chamou pelas criaturas das profundidades. «Temos que encontrar alguma coisa sólida onde esta mulher possa descansar», disse ansiosamente. Só que não existia nenhum pedaço sólido, apenas as águas tormentosas e sem fim.
Um mergulhão desceu na água, para baixo, até ao fundo do mar e trouxe de lá um pouco de lama no seu bico. Encontrou uma tartaruga, espalhou a lama no seu casco e mergulhou outra vez para trazer mais lama.
Então os patos juntaram-se-lhe. Eles gostavam de se sujar com lama e portanto ajudaram a trazer mais alguma nos seu bicos, espalhando-a por cima da tartaruga. Os castores também ajudaram – eles eram grandes construtores – e trabalharam muito, tornando a carapaça da tartaruga cada vez maior.
Agora toda a gente estava muito ocupada e entusiasmada. Este mundo que eles estavam a construir começava a ficar enorme! Os pássaros e os animais apressavam-se, construindo países, continentes, até que por fim tinham construído toda a terra. Durante todo esse tempo, a mulher do céu esteve sempre calmamente sentada nas costas da tartaruga.
Ela ainda aguenta a terra até hoje.


ROSA DO MUNDO – 2001 Poemas para o futuro


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008























(…)

- Sabes? nós julgamos que somos livres quando a morte nos afasta de alguém cuja presença se tinha tornado demasiado pesada ou opressiva. Mas é outro nada que nos está reservado, quando ficamos. E então talvez percebamos que estamos condenados a não dispor de palavras próprias. Todas as palavras já foram ditas, e o que repetimos não é mais do que as aspirações anteriormente formuladas.

(…)

Há homens cuja natureza não pertence a nenhuma época, é de todas pelo seu singelo amor à liberdade: outro sonho desmedido. E todos os sonhos envolvem riscos e impelem a erros às vezes desnecessártios. Olhas para mim porquê? Essa pureza árida consente ou exprime qualquer forma de julgamento? Fomos derrotados, e então? Recomecemos, talvez sem o alvoroço inicial, talvez com uma tristeza sem indulgência, mas ninguém nem nada nos obriga a renunciar à quimera, à utopia.

(…)

Agora sei que nem a morte consegue separar tudo, assim como a vida poucas coisas desvenda. Temos nós de as descobrir.


Um Homem Parado no Inverno – Baptista-Bastos

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008























O CASAMENTO

ALMITRA falou de novo
e disse:
- Mestre, que pensais do Casamento?

Ele respondeu, dizendo:

- Nascestes juntos,
juntos ficareis para sempre.

Ficareis juntos
quando as asas brancas da morte
dispersarem os vossos dias.

Sim. ficareis juntos
até na silenciosa memória de Deus.

Mas que haja espaço na vossa comunhão;
e que os ventos do céu
dancem no meio de vós.

Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um empecilho:
seja antes um mar vivo
entre as praias das vossas almas.

Enchei cada um o copo do outro,
mas não bebais por um só copo.

Partilhai o pão;
mas não comais do mesmo bocado.

Cantai e dançai juntos, sede alegres;
mas permaneça cada um sozinho,
como estão sozinhas as cordas do alaúde
enquanto nelas vibra a mesma harmonia.

Dai os vossos corações;
mas não a guardar um ao outro.

Porque só a mão da Vida
pode conter os vossos corações.

Mantende-vos juntos,
mas nunca demasiado próximos:
porque os pilares do templo
elevam-se, distanciados,
e o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

O Profeta-
Khalil Gibran

domingo, 10 de fevereiro de 2008


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de frutos dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Todos os Poemas- Ruy Belo

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
























Tia Suzana, Meu Amor traz-nos toda a comunicabilidade de uma escrita sedutora, feita de registos subtis desse jogo incessante entre o atávico e a mudança, que tem tanto a ver com a sua experiência de vida como com o corpo social de que fazemos parte. Um belo livro que conta a paixão lenta (que percorre todo o texto como uma melodia) de um jovem beirão pela sua tia.
Tia Suzana, Meu Amor - António Alçada Baptista

domingo, 3 de fevereiro de 2008
























«Em poesia, creio que é o nosso maior autor contemporâneo a cantar o amor e o desejo. (…) Um Amor Feliz prolonga, nas dimensões do romance, a subtileza da escrita, a delicadeza no olhar, aqui e ali a irrupção súbita de uma anotação crítica violenta e enraivecida que dá vigor à narrativa, e sobretudo isto: o prazer de narrar uma história, uma história de amor.»

Lauro António (in A Capital, 29/12/1986)


(…)
Digamos, para simplificar, que se chama Y. (E surpreendo-me a murmurar: Ípsilon…) Além de não querer nem poder dizer o seu nome, o nome é o que menos interessa; ou o que menos deveria interessar-nos. Mas só o facto de lhe chamar Y já a torna diferente de quem ela é, de quem eu julgo que ela seja.

(…)

Um Amor Feliz, de David Mourão Ferreira

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
























FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Antologia – Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008



Do Prefácio

Há uma escrita de mulheres. Confusa e embaraçada como elas, quando é uma escrita de mulheres. Eu atrevo-me a dizer que o supremo estilo das mulheres é o estilo místico; porque, então, tudo o que toca ao amor é a mais absurda visão e um acordo de profecias.
Mas, no mais das vezes, as mulheres escrevem segundo o modelo que obtiveram dos homens. Para eles, as mulheres têm de ser sensuais, complicadas, motivo de reflexão, submetidas ao obstáculo da reflexão. Mas não são assim. Os melhores livros de amor são feitos com o que os homens ignoram sobre as mulheres. Ignoram quase tudo.
Agora começa a haver uma literatura feminina, uma forma de a mulher se interrogar; mas ainda só balbucia e, quando tem mais sucesso, é quando se aproxima da anedota sexual de Margarida de Navarra.; quando parece à vontade no papel de marafona e espreitadora de alcovas. De repente, tudo pode mudar. Como quando Filomena (o rouxinol da fábula, porque Filomena é rouxinol e canta para tirar ao tempo o seu significado de acção, de discurso) intervém na página 75: “ Apesar disso, narradora, como te chamas na vida real? Eu? Mariana”.
Mariana é o símbolo, e Ana, sua metade, em vez do seu duplo, completa o enigma. Ambas pressentem a natureza duma mulher, mas não vão senão até à tentação de contar essa verdade que só pertence às mulheres. Todavia – haverá uma verdade feminina? Como se perguntássemos se as mulheres têm alma, se não são feitas de humor frio, impróprio das actividades intelectuais, como se disse. Não é tão absurdo como parece. A mulher é lançada para desertos onde a alma morreria de sede; onde a mente ficava sufocada se lhes conhecesse a solidão. Nada há de mais solitário que uma mulher; por isso é tão disponível – porque não sente profundamente a autoridade de nada no mundo. Ela não constrói termo de comparação. Quando é edificante e santa, isso não resulta exemplar; é uma experiência da solidão. Nunca é sujeita a nenhum poder; apieda-se, não ama. Sofre, mas não é vítima.
Filomena Cabral, no seu livro Tarde de mais Mariana, está perto de ausentar-se da tradicional literatura feminina, que é um rebuçado de ovos dos conventos de clarissas ou é uma apologia do amor para senhores velhos, com verdes amostras de libido. “Mereceste mil vezes a solidão” – diz Mariana. E diz:” por ti me prendo ao mundo”, com lucidez que até está a mais no texto elaborado. A verdade está aí, como uma gota de chuva no ar seco e na paisagem formidavelmente limpa e serena. A mulher disse a sua verdade: “por ti me prendo ao mundo”. Pelos olhos do homem ela vê, pelo espírito do homem ela deseja e ama. Mas não é ela quem ama nem deseja.
Não sei, realmente não sei, donde veio a mulher com o seu humor frio que a escola dos teólogos situa bem longe dos domínios da alma. Não há redacção definitiva sobre a mulher, enquanto não houver uma autêntica literatura feminina. Será que é tarde de mais Mariana? Será que já era tarde no tempo dourado e tempo de amor em que o homem foi criado?

Agustina Bessa-Luís
29 de Maio de 1985

Tarde de mais Mariana, de Filomena Cabral

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008






















«- o que estás a fazer? – perguntou a minha mulher quando me viu, contra o que é costume, demorar diante do espelho.
- Nada – respondi -, estou a olhar para o meu nariz, para esta narina. Ao carregar sinto uma dorzinha.
A minha mulher sorriu e disse:
- Pensava que estivesses a ver para que lado te descai.
Voltei-me como um cão a quem tivessem pisado a cauda:
- Descai? O meu nariz?
E a minha mulher, placidamente:
- Claro, querido. Olha bem para ele: descai-te para a direita.»

Vitangelo Moscarda é um homem que vive instalado na sua condição, até ao dia em que a mulher lhe revela um pormenor a seu respeito. A partir daí Moscarda sofre o inferno dos espelhos, do olhar dos outros, que nele sempre vêem o que ele não vê. Mas o que é ele para si próprio? Moscarda descobre que não pode apoderar-se de uma qualquer forma sem destruir o ser, a vida. Por isso irá até ao extremo de se exilar da sociedade, salvaguardando aquilo que para ele é essencial – única liberdade possível: o viver e morrer em cada momento, o renascer também a cada instante, a cada novo dia.

Um, Ninguém e Cem Mil, de Luigi Pirandello

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

























IX. MADRIGAL

Tu já tinhas um nome, e eu não sei
Se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade, As mãos e os Frutos

domingo, 20 de janeiro de 2008

























(…)
«o que tenho para dizer, é de facto qualquer coisa de diferente do artista e da arte. É a mulher que pretende falar. E não é apenas Anais, a mulher, que pretende falar, mas sim eu, que pretendo falar em nome de muitas mulheres. À medida que me descubro a mim própria, sinto que sou apenas uma entre muitas, um símbolo. Começo a compreender as mulheres de ontem e as de hoje. As mudas, as inarticuladas do passado, que se refugiavam em instituições igualmente mudas, e as mulheres de hoje, todas acção, decalques dos homens. E eu no meio delas…»

(…)

O Diário de Anais Nïn

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
























«Saboreei por muito tempo a minha vida perdida; pensei com alegria que a minha juventude tinha passado, porque é uma alegria sentir o frio invadir-nos o coração, e poder dizer, tacteando-o com uma mão, como uma lareira que ainda fumega: já não queima. Lentamente fui recordando todas as coisas da minha vida, ideias, paixões, dias de cólera, dias de luto, latejos de esperança, tormentos de angústia. Revi tudo, como um homem que visita as catacumbas e contempla lentamente, dos dois lados, os mortos alinhados uns a seguir aos outros. Todavia, se contar os anos, não foi há muito tempo que nasci, mas tenho inúmeras recordações que me oprimem, como os velhos são oprimidos por todos os dias que viveram; às vezes, parece-me que já vivo há séculos, e que o meu ser contém os restos de mil existências passadas. Porquê? Amei? Odiei? Procurei alguma coisa? Ainda duvido; vivi à margem de todo o movimento, de toda a acção, sem me mexer, nem pela glória, nem pelo prazer, nem pela ciência, nem pelo dinheiro.
Ninguém, nem aqueles que me viam todos os dias, nem os outros, soube alguma coisa do que vai seguir-se…»


Novembro, de Gustave Flaubert

terça-feira, 15 de janeiro de 2008
























PERMANENTE ALFORRIA

o paredão enfrenta o mar que agride
a gaivota sulca o ar que acolhe
o sol arreda a nuvem que corteja
o mar liberta a onda que revolta
a areia sorve a água que agrega
o pé pisa a concha que estranha
o corpo saúda a natureza que alenta
a solidão rodopia no ar que afaga
a manhã coalha-se na luz que transporta
o cansaço esbarra no quadro que confronta
o sábado esgota-se no ocaso que redime
a intenção queda-se no esgar que não se cumpre
o domingo chega na cópia que oprime
o homem só regista o tempo que o suprime. e eis
que a liberdade toa no peito o acto de ufano feito ave
no infinito convocando ao vento a esperança
em Abril canto comum de silêncios incontidos
liberdade de poder íntegro. inteira alforria do ser,
que nega a agressão
e ao pé o direito de pisar
e as solidões rodopiantes
e esgotados sábados redentores
e cansaços esbarrados de confrontos
e esgares em rictos mal cumpridos
e cópias das supressoras opressões.

Paulo Neto

in: Na Liberdade – Antologia Poética- 30 anos-25 de Abril


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008






















(…)

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

(…)

A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe

sábado, 5 de janeiro de 2008























(…)
Dentro da alma,
Lá bem no centro,
Pousado numa pata
Está um pássaro.
E o nome do pássaro é pássaro da alma.
E ele sente tudo o que nós sentimos:

Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá.
Em todos os sentidos do nosso corpo, sofre muito.
Quando alguém nos ama,
O pássaro da alma dá pulinhos
De contente,
Para trás e para a frente,
Vai e vem.

(…)

E o mais importante – é escutar logo o pássaro.
Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos.
É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios.
Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas
Dentro de nós.

(…)

O Pássaro da Alma, de Michal Snunit

sábado, 29 de dezembro de 2007

(…)

Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.

(…)

Livro do Desassossego – Fernando Pessoa

nota: este seria o livro que eu levaria comigo para uma ilha deserta.


sábado, 22 de dezembro de 2007

«O fim dos dias é não fazer nada. A inércia contemplativa é preferível a tudo. Viva o subterrâneo! Conquanto eu inveje o homem normal, até à última gota da minha bílis, quando o vejo tal como é, renuncio a ele (embora não deixe de o invejar). Não! Não! O subterrâneo vale mais! Lá, ao menos, pode-se… cá estou eu a mentir outra vez! E minto porque sei, tão claramente como «dois e dois são quatro», que não é o subterrâneo que vale mais, mas qualquer outra coisa a que aspiro, sem conseguir descobrir. Vá para o inferno o subterrâneo!
Se eu pudesse ao menos acreditar numa única palavra das que estou escrevendo! Juro que não creio em nada, nada do que estou afirmando. Ou antes, talvez acredite um bocadinho, mas sinto no entanto que minto como um dentista.
- Mas então para que é que escreveste isto tudo? Perguntam vocês.
Gostava de saber o que me diziam se eu os fosse visitar ao subterrâneo onde tinham passado quarenta anos… pode-se lá deixar um homem sozinho9 e sem fazer nada!»


In A Voz Subterrânea, de Dostoïevsky

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O meu tio retirou a máquina fotográfica do seu estojo, fez experiências contra o sol, fechou os olhos, tapou os olhos com a pala do boné, andou às arrecuas, para os lados, correu, ajoelhou, e depois, finalmente, mandou-me que o olhasse.
«Mas antes colhe um ramo de margaridas!»
Colhi-as, fiz um ramo, olhei para ele contra o sol, de lado, sentada no meio das flores, de perto, de mais longe, com e sem chapéu, e quando cheia de soberba por me sentir rainha, olhei de três quartos, com a boca unida, cheia de silêncio, o meu tio gritou.
«Isso, isso, não te mexas, Greta Garbo!»


A Instrumentalina, de Lídia Jorge

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Numa máquina projectada para poupar futuro,
numa máquina concebida para gastar passado,
o maquinista opera no presente
num exercício de esgotamento do tempo
inexorável e transcendente até se fundir
na vertigem do esgoto.
Wolf é só mais um de nós no processo só
de passar a ser menos um.


A Erva Vermelha, de Boris Vian

domingo, 9 de dezembro de 2007

«Uma barragem contra o pacífico poderia ser, também ainda hoje (1988), apenas uma visita guiada aos escombros das propagandas coloniais com que se encheram as paredes da Europa no fim do séc. XIX e na primeira metade do séc. XX para os deserdados e os desiludidos dessa mesma Europa, os que simplesmente procuravam (onde?) o seu quinhão da herança de espaço e mundos novos, ou tão só um lugar seu, onde viver e trabalhar, um canto da planície, entre a floresta e o Pacífico, só com o sol por cima e hectares de terra fértil a perder de vista, onde apenas haveria que produzir, criar uma família (e, naturalmente, enriquecer) sem problemas nem políticas, sem a sensação de desespero e asfixia das metrópoles; para isso, segundo Marguerite Duras, bastava a embriaguez causada pelas leituras de Pierre Loti.
Sim, este romance poderia muito bem ser essa visita guiada… se antes de mais não fosse a evocação daquelas vidas jovens que, no momento de tomarem posse de si e da terra, já lá na colónia, face à monstruosidade insensível do Pacífico e à transparência mesquinha das suas existências de «brancos pobres» sem horizontes, mais não possuem entre mãos e no corpo do que a raiva surda, que só jovens que batam com a cabeça contra um muro tão duro e tão pouco sólido como o Pacífico podem conhecer, uma raiva que é surda porque não há onde nem a quem reclamar contra a fraude.

Sequência a sequência, neste seu primeiro grande romance, Marguerite Duras dá-nos – como quem recusa a perda dos sonhos de amor e vida dos seus anos juvenis na Indochina e precisasse de os contar, lembrando-se sempre de mais e mais pormenores, mais factos à medida que o passado se perde, para que no fim haja aquilo a que se chama o presente da memória, o presente do passado -, num fundo tropical de noites, plantações, dinheiro, bailes, álcool, com um gira-discos a tocar a Ramona, enquanto um diamante pode ser ainda um último fôlego, os encontros dos desejos com os corpos, ou tão só a poesia do regresso à ordem natural das coisas».

Uma Barragem Contra o Pacífico, de Marguerite Duras

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

«As pessoas nem poderiam calcular que dor era aquela. Às vezes, ah, quão perto lhe parecia estar do alvo. Quão perto do instante do combate. E então, curiosamente, sentia-se, ou julgava sentir-se, como os pugilistas. Era assim: os dedos das mãos pediam exercício, pediam uso, até pediam violência. E punha-se a esticá-los e a flecti-los, ou a bater com a mão fechada na concavidade da outra mão, como se estivesse nas vésperas de subir ao ring para uma disputa decisiva, contra um último e impiedoso adversário. Corria à mesa de trabalho, afastava os papéis intrusos – perante si apenas a tal dúzia de folhas impecáveis que queriam ser violadas. Vamos a isto, André. Insiste, André. Chora de raiva, se for preciso. Escreve uma vez, outra, mais outra, emenda, rasga, destrói, recomeça – não te deixes vencer. Isto é um combate, André, o teu combate. Sobe ao ring para te medires com o mais duro dos adversários – tu próprio, desencantado e incrédulo.»

O Rio Triste, de Fernando Namora

domingo, 2 de dezembro de 2007

O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que consegue traduzir de outro modo ou em novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, como a mais medíocre, forma de crítica é uma expressão autobiográfica.
Os que encontram significados disformes em coisas belas são corruptos sem agradarem, o que é um defeito.
Os que encontram belos significados em coisas belas são os cultos. Para esses há esperança. São os eleitos para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. É tudo.
A antipatia do século XIX pelo realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem é assunto para o artista, mas a moralidade da arte consiste na perfeita utilização de um meio imperfeito. Um artista não quer provar coisa alguma. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.
Um artista não tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. Um artista pode exprimir tudo.
Para o artista, o vício e a virtude são matéria de uma arte.
Do ponto de vista formal, o modelo de todas as artes é a arte do músico. Do ponto de vista sentimental, o trabalho do actor é o modelo.
Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo.
Os que penetram para lá da superfície fazem-no a suas próprias expensas.
Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas.
O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.
A diversidade de opinião sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo próprio.
Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração.
Toda a arte é perfeitamente inútil.

Do Prefácio – O Retrato de Dorian Grey, de Óscar Wilde

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

As mulheres livres e libertadoras correm com os lobos. Galgam o mundo montadas nas suas ilhargas esguias e frementes, febris e lustrosas sob os seus dedos, que ficam a cheirar a rosmaninho e a cedro. Refrescam-se nas suas sombras, aninham-se nas suas grutas e vivem nos negrumes matizados de luz das florestas espessas: respirando as folhas raiadas, bebendo o orvalho cintilante, devorando os frutos proibidos, quando descobrem a árvore do conhecimento.

Recusam o carcereiro da casa. E mantêm acesa a chama da imagem feminina das lendas, dos contos de fadas, dos mitos ancestrais: a deusa, a vestal, a amazona, «aquela dos bosques», a loba. Seres mitológicos, provavelmente irrecuperáveis e inatingíveis. É de tudo isto que nos fala o excelente trabalho da psicanalista americana Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos; por entre mitos milenários e histórias do arquétipo da mulher selvagem, uma espécie em vias de extinção nos nossos dias. Um livro feminista empolgante, galvanizante, que fala de mulheres jubilosas, desvenda sinais, segue pistas, descobre passos encobertos, tapados pela poeira do tempo. Interpreta narrativas antigas, fábulas e legendas fantásticas.

Interpretações essas através das quais a autora identifica o arquétipo da mulher selvagem já referido atrás, como sendo a essência da alma feminina, propondo em seguida o assumir desse longínquo passado que agora nos escapa, caso desejemos vir a atingir uma real e autêntica plenitude: «Quando as mulheres reafirmam o seu relacionamento com a natureza selvagem, recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, uma oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia.». Seres intuitivos, sensíveis e orgulhosos, dotados de uma percepção aguçada, de uma «determinação feroz e de uma extrema coragem», que segundo Clarissa Estés têm bastante em comum com os lobos. E tal como estes, ao longo dos séculos foram perseguidas, cercadas, acossadas e inúmeras vezes mortas. Deixando claro o modo ostensivo como a psicologia tradicional se mantém lacónica ou mesmo omissa, no que diz respeito a questões importantes para as mulheres, tais como: «o aspecto arquetípico, o intuitivo, o sexual, a sabedoria da mulher, seu fogo criador».

Mas, Mulheres que correm com os lobos é sobretudo um inteligente e corajoso ensaio, completamente diverso do que é habitual publicar-se entre nós. Um texto desafiador, que parte de uma corrente actual do feminismo, que recorre aos saberes colaterais para seguir as pistas e entender os sinais que nos levam até ao passado distante das mulheres, a fim de melhor se entender a causa da feroz e deliberada destruição, que a partir de certa altura passou a marcar todo o seu percurso, até chegar à sua anulada existência actual.
…
Neste livro, há a recuperação de uma sexualidade sagrada, ensinam-se rituais de iniciação e fertilidade, refazendo a abordagem das deusas das culturas matriarcais. Dando-nos a ver o ser que continua a habitar, apesar de tudo, no subterrâneo selvagem da rebelde e esquiva natureza feminina.

Maria Teresa Horta, sobre o livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Há no mundo uma falha. Os poentes são labaredas roxas: resquícios de escarlate, dois, três jactos violetas que se estendem pelo céu - uma maravilha quimérica. A primavera prolonga-se: superabundância de flores nas árvores, espiritualidade na matéria, como se as árvores fossem morrer. Mais flores, mais poentes onde o ouro e o roxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de cores, que pressagiam catástrofes, e um ruído apagado, esquisito, insuportável dentro de nós próprios, que só comparo ao som de uma borboleta esvoaçando contra as paredes de um vaso.


É a morte que faz falta à vida.


HÚMUS - Raul Brandão