
ANÚNCIO
A expectativa de me fugir um breve instante de respiração. Surpreender-me num ritmo acelerado de corrida de bicicletas perante um coração fraco. Varrer-me o vento na sua simplicidade de falta de palavras. A expectativa desse mesmo instante. O deserto quase-azul escuro dos teus olhos semicerrados. Essa estrada que me espera durante as próximas horas de existência com as canções de um cristalino zumbir de abelhas ao vento. A crina de um incidente. A tua presença absoluta num espaço contíguo. A saída de emergência de uma distância inesgotada diante de uma pedra esculpida com a precisão de segundos de erosão, imensamente terna e dolorosa. O equilíbrio de um corpo numa mente à beira da loucura de ti. Saber os teus dois nomes com a destreza de uma agulha a ferir um braço gentil. O poema, o último de todos, dentro desse sangue adocicado de tardes de Abril. O reencontro dos teus lábios de pássaros verdes. E estas imagens, sobre, sob a retina de um quotidiano laboriosamente impensado sobre a tua ausência presente ou um carrossel de pó a anunciar a nossa chegada.
MANUAL DE COMO DESCALÇAR SABRINAS A MENINAS
Quando descalçares sabrinas terá de ser com procedimentos cinderélicos. Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. Todos os pés de vento. Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. Prever o mais breve e inútil movimento no sistema esquelético. Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. Pô-los a tocar sob ameaça de tempestade. Sentar-te na margem dos rios sinoviais e atirar-lhes pedras. Pô-los a pensar sobre os caminhos – dar-lhes caminhos. Encontrar-lhes as faces e beijá-las nas suas destrezas. Retirar com cuidado e deixar pousar o pé sobre o chão.
Ana Salomé - Anáfora
















































