do lugar dos outros

do lugar dos outros

domingo, 24 de maio de 2009







sábado, 9 de maio de 2009

O destino

Diria facilmente que o destino é uma imagem retirada do domínio geográfico, o da separação das águas – o famoso continente dividido a partir do qual, nos Estados Unidos, certas águas partem para o Pacífico e outras para o Atlântico. Por essa divisão, num determinado momento, dois elementos separam-se irreversivelmente, segundo parece, e não mais voltarão a juntar-se. A separação é definitiva. Qualquer coisa ganha forma de existência, qualquer coisa não a toma – e o que não nasceu ao mesmo tempo tornar-se-á noutra coisa, e assim permanecerá.
O destino seria uma forma de separação definitiva e irreversível. Mas uma espécie de reversibilidade que faz com que as coisas separadas permaneçam ainda cúmplices. O ultramicrofísico fala ao mesmo tempo da separabilidade e da inseparabilidade das partículas. Para lá de como se afirmam, e muitas divergem definitivamente, cada partícula permanece ligada e conectada à sua antipartícula. Não saberei levar muito longe esta comparação, mas sem dúvida que ela nos dá bem conta do que se revela como destino na tragédia, onde é a forma do que nasce e do que morre sob o mesmo signo. E o signo que conduz à vida e à existência é também o mesmo que conduz à morte. Portanto, será sob o mesmo signo fatal que as coisas começam e acabam. É o sentido dessa célebre história que é a morte em Samarcanda… Na praça de uma cidade, um soldado vê a morte fazer-lhe um sinal, fica cheio de medo, vai ter com o rei e diz-lhe:”A morte fez-me um sinal, eu fugi para o mais longe que pude, fui ter a Samarcanda”. O rei convoca a morte para lhe perguntar porque tinha amedrontado o seu capitão. E a morte responde-lhe:”Não lhe quis meter medo, mas queria apenas lembrar-lhe que esta noite temos encontro em Samarcanda”. O destino revela assim uma forma de certo modo esférica: quanto mais se distancia de um ponto, mais dele se aproxima.
O destino não tem a bem dizer certas “intenções”, mas por vezes temos a impressão de que enquanto se desenrola uma vida de glória e de sucesso, em qualquer parte, obscuramente, um dispositivo trabalha ao contrário e faz escurecer, de forma imprevisível, a euforia no drama. O acontecimento fatal não é o que se pode explicar por diversas causas, é antes aquele que, num dado momento, contradiz todas as causalidades, que chegam de algum lado, mas possuem esse destino secreto. Assim, podemos encontrar certas causas na morte de Diana e procurar reduzir o acontecimento a essas causas. Mas trata-se sempre de um álibi convocar as causas para justificar os efeitos: não se esgotará dessa forma o sentido ou o não-sentido de um acontecimento. Ora, neste caso, o que constitui o acontecimento é um retorno do positivo em negativo, essa mudança que faz com que, quando as coisas se mostram muito favoráveis, tornam-se funestas, como se despontasse em silêncio uma força sacrificial colectiva. O destino é sempre o princípio de reversibilidade em acto. Neste sentido, diria que o mundo nos pensa, não através de uma forma discursiva, mas ao invés, contra todos os nossos esforços para o pensar a seu respeito. Cada um de nós poderá encontrar facilmente alguns exemplos, porque mesmo nas próprias coincidências existe toda uma arte. Quando a psicanálise fala de lapso, de substituição de palavras como a palavra espírito, isso deriva também de uma arte da coincidência: num dado instante existe uma sedução estranha entre os significantes e é isso que torna psíquico o acontecimento.
Mas eu imaginaria facilmente, como o oposto desse universo por inteiro informatizado, que nos permite ver ou prever, um mundo em que não houvesse mais coincidências. Um mundo assim não seria um mundo do acaso e da indeterminação, mas um mundo do destino. Sim, todas as coincidências se revelam de alguma forma predestinadas e impor-se-iam ao destino, ao que tem uma clara finalidade, o destino, ou seja, o que possui um destino secreto, uma predestinação, sem um sentido religioso. A predestinação diria: determinado momento está predestinado a um outro, esta palavra a uma outra, como num poema em que sentimos que as palavras tiveram sempre tendência para se juntarem.
Do mesmo modo, na sedução existe uma forma de predestinação: entre o feminino e o masculino, não penso que haja apenas uma relação diferencial, mas existe também uma forma de destino. Estamos sempre destinados ao outro, é uma troca, uma forma dual e não, contrariamente à concepção que geralmente se tem, um destino individual. O destino é essa troca simbólica entre nós e o mundo que nos pensa e nós pensamos, em que têm lugar essa colisão e essa colusão, essa telescopagem e essa cumplicidade das coisas entre si.
Reside aí pois o crime e a dimensão trágica. A punição é infalível: existirá uma reversibilidade que fará com que alguma coisa de si seja vingada. Canetti declara:”A vingança não é só o desejo de a querer, mas ela far-se-á e faz-se automaticamente pela reversibilidade das coisas”. Tal é a forma do destino.

Jean Baudrillard – Palavras de Ordem

quarta-feira, 6 de maio de 2009

o mergulho de profundidade não deve ser confundido com a introspecção. apesar de o seu objectivo ser o mesmo: o corpo profundo, afundado. o objectivo não é reflectir sobre os objectos submarinos, trazê-los à superfície, para depois os analisar, com os instrumentos. extrovertidos. nas mãos fantasmas; mas afundarmo-nos num leito de destroços. e não contar a ninguém o que vimos. nas planícies. que se prolongam sob a abóbada da pele nocturna. e virmos à superfície por ar. apenas quando ardem os pulmões.

Tiago Araújo - FÓRMULAS

sábado, 18 de abril de 2009


um dizer ainda puro

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato – Um mover de mão

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
à passagem do tempo. A juventude é um vício
que perdemos inevitavelmente. Dizes: é breve o amor,
efémera a vida.

Somos uma estância museológica,
algo anacrónico que aprende a perdurar por medo
de morrer. Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvida, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

Basta-me que o teu olhar me encontre.

José RuiTeixeira – Para Morrer

quarta-feira, 8 de abril de 2009



somos iguais em todas as metamorfoses, percorremos os mesmos lugares. a cidade cansou-nos gota a gota de um anestésico perfeito e não queremos partir. estamos suspensos numa teia tecida com cabos de aço que nos ligam a pessoas e edifícios. deslocamo-nos pela tensão de uns cabos sobre outros, num ritmo não natural, como o de uma marioneta que se cria a si própria. estamos sentados na cama, com a mala ainda vazia dos objectos espalhados pelo quarto, a sensação de que não chegaremos a partir e de que já só podemos ser diferentes noutro lugar.

Tiago Araújo - Livre Arbítrio


sábado, 4 de abril de 2009



queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro sena-lino – zona de perda livro de albas

terça-feira, 31 de março de 2009



Assim se despedem os pássaros do Inverno
Sepultam uma terrível palavra no teu sangue
E guardam silêncio sobre tudo o que lhes foi revelado.

Luís Falcão – Pétalas negras ardem nos teus olhos

sábado, 14 de março de 2009



eu sei: o medo é um mover contíguo à inocência onde
continuamente morremos
como pequenos pássaros fugitivos
basta ler nos teus olhos que as estações são lugares
de passagem e quem as habita será sempre
um estranho que colhe magnólias dos carris


isabel coelho dos santos – o tempo mais puro

domingo, 8 de março de 2009



ETERNIDADE

Faço com as mãos
o destino das coisas
que me cercam

Tomando devagar o tempo incerto
Quebro e desarrumo

Perco


Maria Teresa Horta - Destino

terça-feira, 3 de março de 2009


...

"O livro que é feminino reveste-se de um ondeamento. Coloco a mão sobre ele, e o meu contacto é directo. O livro que é masculino atrai igualmente a minha mão, mas contenho-me um pouco porque ela fica a oscilar num gesto que não entendo."

...

Maria Gabriela Llansol - Amigo e Amiga (curso de silêncio de 2004)

sábado, 28 de fevereiro de 2009


.
(MESMO QUE AS TUAS VEIAS GELEM)


Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo,
na orla infinita da tua mão,
no teu ombro, que é uma espada.
Na tua língua, que é a minha.
Só o teu coração saberá
se é
promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.

Lourdes Espínola – As Núpcias Silenciosas
.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Começo as manhãs de branco
e não sei nada

costurando pedaços separados
como será o fio dos dias
os orifícios do espaço
abertos como tempos cercados?

no abraço interno doce deitado
não sei nada


Na memória dos pássaros – Graça Magalhães
.

sábado, 31 de janeiro de 2009


O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume. Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão. Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica - nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante.

Faíza Hayat – O Evangelho segundo a serpente

.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009



Regressas pelos espelhos abraçado à névoa de um tempo breve, aproximas-te da superfície, contemplo o rosto emergente, nenúfar lançado no vórtice de círculos concêntricos; recordo um perfume.

Necessário seria conheceres evanescências incrustadas na porta sólida da memória: e sempre me detenho no umbral. Como explicar a recordação de ti, de nós sabemos sempre pouco, nada de nossas auras, eflúvios, deles nos falariam outros quase sempre mudos ou desinteressados. A avidez, atenta, com dedos longos arrepanha, puxa para si, sortilégios abandonados por complacência, selecciona-os, guarda-os como avarento para possibilitar-se pequenas trocas, comércio mesquinho com os que experimentam fome de nós. Por ela te recordo, olho, inebrias, inquietas.

Os espelhos de nada sabem na superfície lisa.

Ter-se-ão agitado quando mergulhamos neles as nossas imagens enlaçadas, retido o nosso olhar? Dois espelhos venezianos, distanciados de uma parede a outra parede, trocaram-se imagens em jogos de eternidade, nada mais. A fragilidade habita os espelhos, em nós se enreda, por isso te digo, Amado, o tempo urge, passa, goteja e engana. Pensa clepsidras, relógios de sol, analisa atento urgências e desvarios, medo e fuga: submete-os.

Aguardarei, Amado, a hora em que os espelhos parecem negros e fundos como cisternas, e experimentarei o queixume, talvez regresse o eco de palavras escutadas em ressonâncias doces, e sofro a tentação de destruí-los para ver-te em mil reflexos. Lanternas na noite, doem-me os olhos na intermitência: se o desespero me ergue as pálpebras, a tristeza neles me pousa os dedos de seda.

A claridade vai alterando o cenário: vejo a cadeira onde sentado sorriste; ajoelhada descalcei-te.

(que dizer da Morte para além do luto, dos sinais visíveis ou risíveis, dela nada sei, sim do silêncio-dique, de torrentes de palavras sempre desviadas de seu curso, nunca em ti desaguando.)

Atravesso desertos, Amado, não os que atravessas; assim, o desencontro.

Filomena Cabral - AMATUS

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009



(…)

Paixão inenarrável plena de sustos e refúgios. Em vão, direi cardumes iridescentes e velozes, o emaranhado de vibráteis remos minúsculos em seus flancos. A dor indescritível escorada na ausência, a beleza intoxicadora dos sentidos, o véu húmido em teus olhos, a linha inapelável dos lábios. Separam-nos muros de gaze onde esfacelaríamos os dedos, porventura ausentes, ávidos ou tristes, assustados na presença da mão. Inocularia em ti a surpresa do gesto, a delícia de deixar-me escorrer pelos teus contornos, tomada de assalto por nuvens graníticas de ilusões sedimentadas e frustradas, endurecidas pelo tempo redutor.
Poderia abandonar-te junto de nardos, confundido em sua brancura ou outra cor, em evanescências múltiplas, e nelas incluiria o odor de um corpo adormecido tingido de desencanto, o rosto enfeitado de cristais inesperados.
Como rio surdo à própria passagem, devoras a distância fluida e contornas pequenas ilhas solitárias, afagando-as e afogando-as na brandura irresistível de abraços densos. Teimo em divisar os pés dos deuses, sempre os escondem entre floras estranhíssimas; dos lábios talvez lhes pendam luas pequenas em quarto minguante mostradas no avesso de si.
Gostaria de narrar a dor, desmontar o medo, contudo cavalgo em seu dorso: as mãos esfaceladas claudicam.
Flutuo no silêncio, imponderável, na pretensão do sopro, diviso-me submersa no desejo, esbracejante e frágil, ansiosa como afogado: aguarda-me uma praia e não sei se distinguiria os teus ombros idênticos a fluidas muralhas, ausentes de besteiros e despidas de pequenas ervas tenras e frágeis, trama de tapete irresistível.
Tudo o mais seria paixão inenarrável, desabitada, com as marcas de todas as dores e prazeres, deixadas por outros nómadas, sedentos de paisagem como tu. Assim eu.
Os deuses entenderam atribuir aos homens a dor como alimento indispensável, mesmo que pelo seu contrário. O prazer transborda, afoga e desaparece, absorvido pela presença insubstituível do corpo, pele, ou na ausência cantada, vibrátil, forjada em presságios: assim o regresso fatigado, ou insofismável refúgio.

(…)

Filomena Cabral – Elegia para um corpo adormecido

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009



Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Albano Martins – Palinódias, Palimpsestos

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009



(…)

A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo – como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar.

(…)

A História de Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008



SEM VITÓRIA, VIVES COMIGO.
pequena
e carregada.

Só lá fora, onde
as nossas almas ainda estão, na terra de ninguém,
é que se canta. Canta-se
no brilho
daquilo que passou ao nosso lado.

Nem nuvens, nem estrelas – nós
não olhamos para cima.

Chega-te mais, anda:
para que não sopre duas vezes o vento
através da nossa casa aberta.


Paul Celan – A Morte é uma Flor

domingo, 28 de dezembro de 2008



NEVE

Oiço-te na extensão do sono
com dificuldade. O inverno, a neve
que nele havia, arde.
Era tão branco tudo: astros,
árvores, até as aves
que se abrigavam não sei
em que alpendres. E chamavam,
chamavam da brancura da neve.
Nenhum muro, nenhuma porta,
só a voz que chamava, doce
e pequena voz, a querer
partilhar comigo
o inverno, a neve, o mundo
amanhecendo, anoitecendo, branco.


Eugénio de Andrade – Os Sulcos da Sede

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

«Eram tão lindos, tão suaves os dias femininos ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.
Quando amassávamos o barro vermelho e ecoavam na tarde sons de lume e o vento cheirava a pão, quando olhávamos juntos, do nosso quarto andar, as estradas cor-de-rosa do crepúsculo, parecia, parecia apenas, que não havia segredos entre nós.»

Violeta e a Noite, de Urbano Tavares Rodrigues

domingo, 14 de dezembro de 2008

na suite EPICURE

Tu disseste para eu guardar o silêncio neste quarto. Para que nada dissesse, nem o teu nome. O teu corpo ondulava e eu aceitei a ausência. Disseste para eu nada pedir, para não nomear, não ter nenhuma palavra, nem exclamação, nem sorrisos, para não estar morta também. Para te responder com as mãos, silenciosas, os dedos a baterem-te como a chuva, tão de leve.

Estás suspenso, leve e suspenso e quente, portanto vivo, que surpresa! Só te envolves no berço, sem palavras, como antes delas, com o rosto amado a devolver-te um sinal de reconhecimento. Voltas a fechar os olhos, aninhas-te nos meus braços como se não me visses nunca, como se eu não existisse fora desse abraço por dentro. O meu cheiro como uma palavra acariciando a criança em ti, toda, e a curva da nuca abandonada. O peso tímido da tua cabeça a furar-me a pele, a quebrar-me o peito. Mordes a memória do leite, mexes os lábios, dói-me a secura. Não digo nada, o queixume é já desejo. Tem de ser plano e eterno este tempo, como se a morte pudesse roubá-lo se o dissesse. Não me pedes nada, e nem ousas a violência.

Ocultas tudo para que seja como antes do sono, um mergulho lento, desmembrado, com a aprovação de todos. Os lábios são doces, não procuram, conhecem a felicidade, provam com a língua, provam mais, redondos, enrolados, enormes como o quarto, com a cama que se afunda e nos leva, líquidos, desfeitos um no outro, numa celebração comum, silenciosa, não nomeada. Um abraço sem gestos, só um equilíbrio ténue, frágil.

Escorregamos sem esforço, não sei onde caímos, é a tua memória que nos guia, é o meu silêncio, todo o consentimento e o dom do teu acolhimento para que tudo aconteça longe daqui, sem eu nunca saber onde me levas e vou.
(...)

Devia contentar-me de ter areia escondida
nas pregas da carne e de o não saber.
À noite, passo a mão espalmada por toda a cama
e encontro vento e mar no meu lençol.
sempre sorrio desse facto.
Não consigo ainda deitar-me e ficar feliz
sabendo isto tudo.


Um adeus perfeito – Lídia Martinez

sábado, 13 de dezembro de 2008



(…)
O abraço entre a flor e a borboleta é um abraço
doce como o néctar, mas bem curto e breve.
A flor, quieta, espera a chegada da borboleta
e deixa-se abraçar.
A borboleta passa rasando a flor,
acaricia-lhe as pétalas e segue.

(…)
A linguagem dos abraços
não contém quaisquer palavras,
nem é vazia de sentido.
Acima de tudo, o que nós desejamos nela,
é que o nosso abraço seja eterno e infinito.


Michal Snunit – Vem e Abraça-me

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008



DIÁRIO À NOITE SUPOSTA

(Primeiro dia)

Lembro-me bem: este poema começava a falar de uma estrela.
Era uma estrela no início da imagem. Uma estrela a fugir-me da possibilidade do verso, a fugir-me do íntimo conforto em que a tinha. Estrela a ferir-se nas mãos, a ferir-me nos olhos, estrela.

(Primeiro dia)

Disseste: vou escrever um livro para te esquecer.
Para te encerrar como um assunto.
Para te matar.

Lembro-me bem: disseste exactamente o contrário
mas hoje custa-me acreditar nisso.

Disseste que nele contarias o nosso amor
porque a literatura tem esta presunção de eternidade
e depois deixaste-me e eu já não me lembro bem por quê.

(Primeiro dia)

Eu não tinha estrutura, não tinha claridade.
Eu não tinha holofotes que chegassem, braços que chegassem.

Eu não tinha luz.

Uma estrela, já se sabe, precisa de luz. Alimenta-se da sua circunferência,
do seu tom periférico. Uma estrela precisa de iluminar.
Foi isso. Foi a minha noite. Foi a minha falta de jeito.

(Primeiro dia)

Disseste: Vou escrever um livro para continuar.
Para continuar sem ti.
Foi isso que disseste?

(Primeiro dia)

O que eu queria mesmo era escrever para me salvar.
Para não ter medo.
Para te perder melhor.


Filipa Leal – O Problema de Ser Norte

domingo, 7 de dezembro de 2008


Lembro-te: alguém no amor precisa de estar nu para mostrar ao outro que está demasiado vestido.


Eduardo White – Dos limões amarelos do falo às laranjas vermelhas da vulva

domingo, 30 de novembro de 2008

“O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno. Não basta porém compreender; trata-se de tentar ir até ao fim de todas as galerias obscuras, de procurar abrir algumas portas – quer dizer, no fundo, tentar sobreviver. O nosso universo de cimento e de ramificações eléctricas não é simples. Quanto mais se pretende explicar, mais ele se nos escapa. Viver por dentro, hermeticamente fechado, seguindo os impulsos mecânicos, sem procurar trespassar estas muralhas e estes tectos, é mais do que inconsciência; é expormo-nos ao perigo de sermos pervertidos, mortos, tragados. Sabemos hoje que não há verdades; apenas há explosões, metamorfoses, dúvidas. Bem entendido, queremos abalar. Mas para onde? Todos os caminhos são parecidos, todos são um regresso ao próprio indivíduo. É pois preciso procurar outras viagens.”

(…)

“ Seria preciso falar desta experiência como se fala, por exemplo, do mar. O mar estava presente, todos os dias com ele convivíamos, víamo-lo, pensávamos nele, mas não sabíamos o que queria dizer. O mar, porém, sabia. Era ele que cercava as cidades, era ele que organizava os pensamentos dos homens, que regulava as suas músicas, os seus quadros e os seus poemas. E não o contrário. Como imaginar uma coisa destas? Quando a gente se servia das palavras da linguagem, e na folha branca as alinhava, não nos dávamos conta de que alinhávamos conchas. E o que um dia se descobre, sem se dar por isso, só por se estar sentado num rochedo diante do mar, é que a experiência dos homens está incluída na experiência do universo. E isto, verdadeiramente, é terrífico, e ao mesmo tempo é aprazível, porque nessa altura muitas palavras surgem, muitas palavras desabam. Quer isto dizer que a linguagem é uma expressão do universo modificada pela boca dos homens, uma linguagem por assim dizer interpretada, e cujo original há-de sempre ficar sem tradução.”

(…)


ÍNDIO BRANCO – J.M.G. Le Clézio

domingo, 23 de novembro de 2008



Da abertura:

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma re-leitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem con-vive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
(…)

Do capítulo 2 – nós somos águias!

(…)

“Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar num filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…
(…)

Leonardo Boff – A águia e a galinha (uma metáfora da condição humana)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008



ANÚNCIO

A expectativa de me fugir um breve instante de respiração. Surpreender-me num ritmo acelerado de corrida de bicicletas perante um coração fraco. Varrer-me o vento na sua simplicidade de falta de palavras. A expectativa desse mesmo instante. O deserto quase-azul escuro dos teus olhos semicerrados. Essa estrada que me espera durante as próximas horas de existência com as canções de um cristalino zumbir de abelhas ao vento. A crina de um incidente. A tua presença absoluta num espaço contíguo. A saída de emergência de uma distância inesgotada diante de uma pedra esculpida com a precisão de segundos de erosão, imensamente terna e dolorosa. O equilíbrio de um corpo numa mente à beira da loucura de ti. Saber os teus dois nomes com a destreza de uma agulha a ferir um braço gentil. O poema, o último de todos, dentro desse sangue adocicado de tardes de Abril. O reencontro dos teus lábios de pássaros verdes. E estas imagens, sobre, sob a retina de um quotidiano laboriosamente impensado sobre a tua ausência presente ou um carrossel de pó a anunciar a nossa chegada.


MANUAL DE COMO DESCALÇAR SABRINAS A MENINAS

Quando descalçares sabrinas terá de ser com procedimentos cinderélicos. Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. Todos os pés de vento. Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. Prever o mais breve e inútil movimento no sistema esquelético. Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. Pô-los a tocar sob ameaça de tempestade. Sentar-te na margem dos rios sinoviais e atirar-lhes pedras. Pô-los a pensar sobre os caminhos – dar-lhes caminhos. Encontrar-lhes as faces e beijá-las nas suas destrezas. Retirar com cuidado e deixar pousar o pé sobre o chão.


Ana Salomé - Anáfora

quinta-feira, 13 de novembro de 2008



Minha alma ergueu-se para além de ti...

Tive a ânsia de mais alto

- abri as asas, parti!


Poemas – Judith Teixeira

sábado, 8 de novembro de 2008

Nas palavras de madrugar

há um chão de terras prenhes, roubado à pedra que o tempo mastigou ajudado pelo suor dos homens;

um tempo de sacrifícios indizíveis pela luz ténue das palavras a que nos agarramos, na esperança lícita de interpretar esse tempo que apenas se percebe a espaços, escutando os diálogos entre as brumas matinais e os primeiros raios de sol, ou à tardinha, entre os salgueiros do rio e as oliveiras do monte;

esse monte acariciado pelos dedos do gigante-criador, por onde passam, à ida e à vinda, o ranger das botas e o bater das socas, dos homens e das mulheres que todos os dias sobem e descem o altar, para se darem a essa troca desigual do salgado suor pela vida, do envelhecimento pela recriação dos mistérios do xisto, como se de um sacrifício divino e consentido se tratasse – eis a oração:

às seis e meia da manhã abre-se uma janela, devagarinho, para não inquietar os ruídos de madrugar – os tentilhões e os melros não dão conta e continuam a conversa firme, pardais e tordos cumprimentam-se de galho para galho, no fio telefónico, à escuta de outros segredos, descobre-nos uma pega rabuda, que em silêncio exibe o peito amarelo da sua vaidade;

no entremeio deste olhar, já longe o quanto baste para se perceberem as cores dos lenços e as rugas do tempo, por entre as badaladas da torre sineira, o eco da reza diária traz-nos o caminhar das botas encardidas pelo pó da terra e dos socos esbotenados pela arrogância da pedra - o Alcides, o Balela, o Hernâni e o Moisés, a Rosa de Fátima, a Clotilde, a Aninhas e a Rosinda - , mais atrás, pachorrento mas de cauda em riste, vai o “Perdido” – o cão que alguém deixou, vai para um ror de anos, na borda do ribeiro que passa ao laranjal -, vai como quem faz parte da roga, muito senhor do seu nariz, mas com o faro posto nas côdeas ou nos ossos que restem do “presigo” do pessoal;

é fresco o olhar das manhãs do mês de Maio, traz aromas da terra, já penteada por novos bardos que vestem de verde as velhas cepas, que passam Outonos e Invernos à conversa com as geadas e com os muros húmidos de xisto – pedras acomodadas entre si como laçadas de um pano de renda -,esse trabalho hercúleo da paciência artística, emergente da necessidade de roubar à montanha mais duas leiras de pedra esmagada pelos braços desse tempo;

inspira-se este ar que vem do azul e se mistura com o bafo da inspiração dos montes, que nos entontece com a mesma intensidade com que em Setembro, depois do rio de prata dar lugar ao espelho de águas adormecidas, nos embebeda o mosto que sobe do rio pela calada da noite, embalado pela sinfonia das rãs e das cigarras, enquanto as botas e os socos, manchados pelo sangue da vinha, repousam na soleira do descanso, à espera que o rosário volte ao princípio;

onde os deuses se encontram

há um olhar sobre a pele dos montes, acariciado pela brisa do mosto; mãos nos bolsos e retina saltitante, pousando aqui e ali, ao ritmo dos pensamentos, como se de uma pontuação inquieta se tratasse, à procura da sinfonia que evola da caligrafia dos corpos deitados em ambas as margens, admirando a erecção dos ciprestes ou a nudez dos chorões e dos juncais desenhados na água, onde passeiam as nuvens e as sombras do senado das cepas;

entretanto, a respiração dos sexos ecoa por entre o ruído dos silêncios, escorrentes das coxas e dos seios adormecidos pelo encanto da serpente dourada que desliza entre o xisto esculpido pelo cinzel do tempo, paulatinamente humedecido pelo suor dos homens;

na rumorosa contemplação, ele, ainda de mãos nos bolsos, sente o latejar do sangue a percorrer as artérias da memória que sustenta a existência dos homens que sempre regressam ao xisto das convexas seduções, aconchegados pela manta dos frutos;
imóvel, o olhar lê as palavras que renascem do novo verde, disseminadas pelas luminosidades emergentes da emoção desse abraço:

entretanto, nas encostas de corpos, desenha-se a pauta onde se reescreve a melodia das escrituras do fragmento planetário em que os deuses se encontram, para se embriagarem com cálices de sol.


(parece-nos irresistível este parêntesis - por debaixo deste nosso alpendre há uma ramada de sombras, em cujo arame dois pardais, ainda jovens, se debicam carinhosamente e pipilam qualquer coisa do tipo:
- piu, piu-piu, piriripipiu.
- piu-piu, piriritriririri piu-
o que, traduzido à letra, deverá querer dizer:
- ó meu amor…
- diz, amor meu…)

Agora, Nós – josé braga-amaral

domingo, 2 de novembro de 2008

«Ao romper do dia, apercebeu-se do que a rodeava, do corpo junto do seu; ele dormia, ou pretendia que ela o imaginasse. Obsidiana aconchegou-o no conforto das roupas. Quando acordou, estava só. Estendeu o braço para o lugar vazio e voltou a afundar-se num sono profundo, como se tivesse caído num abismo. Mais tarde, muito tempo depois, anos talvez, afirmaria para consigo deveria ter morrido naquela noite; não a orientaria, nesse aspecto, o negativismo, muito pelo contrário: sublimado o desejo pela ternura, poderia ter evitado a paixão para sempre.»

Obsidiana – Filomena Cabral

sábado, 18 de outubro de 2008


é tão breve o silêncio quando dizer mais era urgente,
tão frágil o fogo das mãos sobre a pele,
tão lúcido o pensamento quando dizer tudo é pouco.


UM CORPO (SUB)EXPOSTO – Isabel Mendes Ferreira



sábado, 4 de outubro de 2008



…
Com poucas palavras, Silverstein fala da relação entre o homem e a natureza, onde uma árvore oferece tudo a um menino que a deixa de lado ao crescer, ao mesmo tempo que se torna um homem egoísta. Mas para agradar ao menino que ama, a generosidade desta árvore não tem fim – ainda que isto signifique a sua própria destruição.
…

A Árvore Generosa – Shel Silverstein

domingo, 28 de setembro de 2008



SONO


adormeci

de cabeça

traída

e acordei

com o coração

magoado


só há uma

palavra

luminosa

que se deixa

em silêncio

o grito


no outono o vento

varre as páginas

aos pés de um livro


as gaivotas

são gavetas

de abrir e fechar

as ondas do mar


o amor é passar

a vida inteira

a amar-te

do outro lado

do mundo

e cara a cara

já não ter força

para dizer

amo-te



Só cá vim ver o sol – Joaquim Castro Caldas


quarta-feira, 24 de setembro de 2008



casa

durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia

esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes – e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema

levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa – respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo

olhas-te no espelho
atribuis-te um nome e um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas – com o vento
que arrasta consigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos


Horto de Incêndio – Al Berto

domingo, 21 de setembro de 2008

«Deixa-me entrar na tua casa, sentar no teu sofá e chorar dias seguidos, sem parar, sem ter que parar, sem limpar as lágrimas alguém pode ver, sem disfarçar a dor, sem medo de ficar com os olhos inchados, o rosto disforme. Não tens que compreender nem te afligir. Sou só eu a ser aquilo que sou em certos dias da vida – inconsolável. Não quero o teu lenço, obrigada, nem o teu ombro, nem água, apenas chorar sentada no teu sofá, chorar no teu cenário, manchar a tua normalidade, gritar dentro dela, fazê-la tremer um pouco. Chorar também por ti que não choras e é preciso de vez em quando. Nem te emocionas, apenas te ris e te preocupas e és malevolamente bom».

Histórias Improváveis – Ângela Leite

terça-feira, 16 de setembro de 2008

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti, como de mim.

Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz, seria
Matar a sede com água salgada.


Câmara Ardente – Miguel Torga

terça-feira, 2 de setembro de 2008

(…)

Notável é o estado do que não sente a tentação daquilo que não faz; não o estado do que é tentado e renuncia. Em termos realistas, o primeiro é a paz, o segundo é a tortura. Os heróis podem falar à vontade. Sofrer é uma estupidez.

(…)

Começo a fazer poemas quando a partida está perdida. Nunca se viu que um poema tenha modificado as coisas.

(…)

Tentação do escritor

Ter escrito qualquer coisa que te deixe como um fuzil que acaba de ser disparado, ainda abalado e quente, vazio de ti próprio, mas também aquilo que suspeitas e supões, e os sobressaltos, os fantasmas, o inconsciente – tê-lo feito à custa de uma longa tensão, com uma prudência feita de dias, tremores, bruscas descobertas, e fracasso, e centralizando a vida neste ponto – dar-se conta de que tudo isto nada é se um sinal humano, uma palavra, uma presença não o acolhe, não o aquece – e morrer de frio – falar no deserto – estar só, noite e dia, como um morto.

(…)


Ofício de Viver – Cesare Pavese

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A diáfana sombra das nuvens passando
sobre a brancura das casas: é a beleza
das desaparições. Todo o instante
é uma pequena cruz do Absoluto.


Livro das Esmolas – Adelino Ínsua

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A RODA

No Inverno desejamos a Primavera,
E na Primavera invocamos o Verão,
E quando ressoam as abundantes sebes
Declaramos que o Inverno é o melhor;
Depois nada há de bom
Porque a primavera não chegou –
Não sabemos que essa inquietude que nosso sangue perturba
É apenas a sua nostalgia do túmulo.

Uma Antologia – W.B.Yeats

quinta-feira, 7 de agosto de 2008



(…)
Ou, nos jardins do verão, o muro quieto na impossibilidade, externo a uma espessura de linhas invisíveis, uma espessura dotada de melancolia.

Ou, mais ainda, no teu casaco abandonado e entreaberto, ou seja, numa forma que descreve o teu desaparecimento.

Esta perplexidade é a consciência. O medo faz de pastor, porém não sabes mais de ti do que um animal absorto sobre a água.


Descrição da Mentira – António Gamoneda

quarta-feira, 23 de julho de 2008



(…)
Paris nunca se acaba é uma revisão irónica dos tempos de aprendizagem literária do narrador na Paris dos anos setenta. Fundindo magistralmente autobiografia, ficção e ensaio, vai-nos contando a aventura em que se envolveu quando, numas águas furtadas de Paris, redigiu o seu primeiro livro. E revela-nos, por exemplo, como em parte escreveu esse livro graças aos conselhos para escrever um romance que lhe deu, resumidos numa folha simples, Marguerite Duras, a sua invulgar senhoria.
Paris nunca se acaba é também a história de como, na sua juventude, o narrador se radicou nessa cidade para imitar literalmente a vida boémia de escritor principiante de Hemingway, que ali foi “muito pobre e muito feliz”, e como, pelo contrário, o narrador foi muito pobre e muito infeliz.
(…)


Paris Nunca se Acaba – Enrique Vila-Matas

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Observas o rosto hirto na vidraça
e respirando fundo sabes: a luz
alonga os traços como um remorso –
porque tudo é nosso e doutrem.
Roubas e roubam-te, do mais
à margem te mantêm, ou a vau.
Desmunido. Que cem anos
não confortam a cova de um dente,
nem refreiam o susto de quando
o silêncio bate portas – é coisa
pública. Veja-se o caso das mãos:
cinco dedos são poucos. Uma
redige o elo de solidão e já outra
congela o sangue nas torneiras.

António Cabrita – Carta de Ventos e Naufrágios

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Porém, o que dói é a ausência de dor na face dos
mortos: hirtos na fina porcelana do seu
rosto, rígidos no vento da sua pedra.
Buracos negros as suas pálpebras ante o
choro das mulheres, a devastação dos filhos.
Sentissem eles as pulsações dos ventos,
a inquietação dos cães, a ruína dos
canteiros, o abandono dos trigos e das vinhas!
Se eles soubessem quanto apascentamos
a memória da sua transumância pelos
lugares que pisaram, e como se lhes
agiganta a cera das figuras, depois da partida
dos seus corpos minguados!
Mas nenhum bálsamo nos dão em troca
de tudo o que lhes damos; tudo se perde
no gesto imóvel, para sempre desenhado.
Esse silêncio compulsivo é o justo preço a pagar
pela mais pura e absurda decantação da alma.

O nome dos Mortos seguido de Biografia das Sombras – Fernando de Castro Branco

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quais são as fronteiras entre a liberdade e a dependência? De que material erótico se faz a inocência? E entre o sonho e o tempo, entre o real e o quotidiano que o transcende, que teia se pratica? De que modo os símbolos se reflectem e se incluem no espelho das coisas?

Boi Vermelho - Catarina Fonseca

domingo, 22 de junho de 2008

«Sonhamos enquanto vemos. Vemos enquanto sonhamos. Mas não estaremos sempre no mesmo lusco-fusco? E não é apenas de noite que o sol atravessa a Terra para nos iluminar? E não transpõem os demónios todos os umbrais da luminosidade?»

Botho Strauss – Fragmentos da Incompreensão

terça-feira, 17 de junho de 2008

424 Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?

554 Mas a tua estrela pode não estar no céu. Põe-na lá.


Pensar - Vergílio Ferreira

sexta-feira, 13 de junho de 2008



NÃO DIZIA PALAVRAS

Não dizia palavras.
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.

Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.

Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio de sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em desejo.

Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.


Antologia Poética – Luís Cernuda

quinta-feira, 5 de junho de 2008


ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia


Antologia Poética – Cecília Meireles