
Assim se despedem os pássaros do Inverno
Sepultam uma terrível palavra no teu sangue
E guardam silêncio sobre tudo o que lhes foi revelado.
Luís Falcão – Pétalas negras ardem nos teus olhos

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Maria Gabriela Llansol - Amigo e Amiga (curso de silêncio de 2004)

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Regressas pelos espelhos abraçado à névoa de um tempo breve, aproximas-te da superfície, contemplo o rosto emergente, nenúfar lançado no vórtice de círculos concêntricos; recordo um perfume.
Necessário seria conheceres evanescências incrustadas na porta sólida da memória: e sempre me detenho no umbral. Como explicar a recordação de ti, de nós sabemos sempre pouco, nada de nossas auras, eflúvios, deles nos falariam outros quase sempre mudos ou desinteressados. A avidez, atenta, com dedos longos arrepanha, puxa para si, sortilégios abandonados por complacência, selecciona-os, guarda-os como avarento para possibilitar-se pequenas trocas, comércio mesquinho com os que experimentam fome de nós. Por ela te recordo, olho, inebrias, inquietas.
Os espelhos de nada sabem na superfície lisa.
Ter-se-ão agitado quando mergulhamos neles as nossas imagens enlaçadas, retido o nosso olhar? Dois espelhos venezianos, distanciados de uma parede a outra parede, trocaram-se imagens em jogos de eternidade, nada mais. A fragilidade habita os espelhos, em nós se enreda, por isso te digo, Amado, o tempo urge, passa, goteja e engana. Pensa clepsidras, relógios de sol, analisa atento urgências e desvarios, medo e fuga: submete-os.
Aguardarei, Amado, a hora em que os espelhos parecem negros e fundos como cisternas, e experimentarei o queixume, talvez regresse o eco de palavras escutadas em ressonâncias doces, e sofro a tentação de destruí-los para ver-te em mil reflexos. Lanternas na noite, doem-me os olhos na intermitência: se o desespero me ergue as pálpebras, a tristeza neles me pousa os dedos de seda.
A claridade vai alterando o cenário: vejo a cadeira onde sentado sorriste; ajoelhada descalcei-te.
(que dizer da Morte para além do luto, dos sinais visíveis ou risíveis, dela nada sei, sim do silêncio-dique, de torrentes de palavras sempre desviadas de seu curso, nunca em ti desaguando.)
Atravesso desertos, Amado, não os que atravessas; assim, o desencontro.
Filomena Cabral - AMATUS

(…)
Paixão inenarrável plena de sustos e refúgios. Em vão, direi cardumes iridescentes e velozes, o emaranhado de vibráteis remos minúsculos em seus flancos. A dor indescritível escorada na ausência, a beleza intoxicadora dos sentidos, o véu húmido em teus olhos, a linha inapelável dos lábios. Separam-nos muros de gaze onde esfacelaríamos os dedos, porventura ausentes, ávidos ou tristes, assustados na presença da mão. Inocularia em ti a surpresa do gesto, a delícia de deixar-me escorrer pelos teus contornos, tomada de assalto por nuvens graníticas de ilusões sedimentadas e frustradas, endurecidas pelo tempo redutor.
Poderia abandonar-te junto de nardos, confundido em sua brancura ou outra cor, em evanescências múltiplas, e nelas incluiria o odor de um corpo adormecido tingido de desencanto, o rosto enfeitado de cristais inesperados.
Como rio surdo à própria passagem, devoras a distância fluida e contornas pequenas ilhas solitárias, afagando-as e afogando-as na brandura irresistível de abraços densos. Teimo em divisar os pés dos deuses, sempre os escondem entre floras estranhíssimas; dos lábios talvez lhes pendam luas pequenas em quarto minguante mostradas no avesso de si.
Gostaria de narrar a dor, desmontar o medo, contudo cavalgo em seu dorso: as mãos esfaceladas claudicam.
Flutuo no silêncio, imponderável, na pretensão do sopro, diviso-me submersa no desejo, esbracejante e frágil, ansiosa como afogado: aguarda-me uma praia e não sei se distinguiria os teus ombros idênticos a fluidas muralhas, ausentes de besteiros e despidas de pequenas ervas tenras e frágeis, trama de tapete irresistível.
Tudo o mais seria paixão inenarrável, desabitada, com as marcas de todas as dores e prazeres, deixadas por outros nómadas, sedentos de paisagem como tu. Assim eu.
Os deuses entenderam atribuir aos homens a dor como alimento indispensável, mesmo que pelo seu contrário. O prazer transborda, afoga e desaparece, absorvido pela presença insubstituível do corpo, pele, ou na ausência cantada, vibrátil, forjada em presságios: assim o regresso fatigado, ou insofismável refúgio.
(…)
Filomena Cabral – Elegia para um corpo adormecido

(…)
A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo – como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar.
(…)
A História de Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach


«Eram tão lindos, tão suaves os dias femininos ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.
na suite EPICUREDevia contentar-me de ter areia escondida
nas pregas da carne e de o não saber.
À noite, passo a mão espalmada por toda a cama
e encontro vento e mar no meu lençol.
sempre sorrio desse facto.
Não consigo ainda deitar-me e ficar feliz
sabendo isto tudo.


“O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno. Não basta porém compreender; trata-se de tentar ir até ao fim de todas as galerias obscuras, de procurar abrir algumas portas – quer dizer, no fundo, tentar sobreviver. O nosso universo de cimento e de ramificações eléctricas não é simples. Quanto mais se pretende explicar, mais ele se nos escapa. Viver por dentro, hermeticamente fechado, seguindo os impulsos mecânicos, sem procurar trespassar estas muralhas e estes tectos, é mais do que inconsciência; é expormo-nos ao perigo de sermos pervertidos, mortos, tragados. Sabemos hoje que não há verdades; apenas há explosões, metamorfoses, dúvidas. Bem entendido, queremos abalar. Mas para onde? Todos os caminhos são parecidos, todos são um regresso ao próprio indivíduo. É pois preciso procurar outras viagens.”
Da abertura:
“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma re-leitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem con-vive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
(…)
Do capítulo 2 – nós somos águias!
(…)
“Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar num filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…
(…)
Leonardo Boff – A águia e a galinha (uma metáfora da condição humana)

ANÚNCIO
A expectativa de me fugir um breve instante de respiração. Surpreender-me num ritmo acelerado de corrida de bicicletas perante um coração fraco. Varrer-me o vento na sua simplicidade de falta de palavras. A expectativa desse mesmo instante. O deserto quase-azul escuro dos teus olhos semicerrados. Essa estrada que me espera durante as próximas horas de existência com as canções de um cristalino zumbir de abelhas ao vento. A crina de um incidente. A tua presença absoluta num espaço contíguo. A saída de emergência de uma distância inesgotada diante de uma pedra esculpida com a precisão de segundos de erosão, imensamente terna e dolorosa. O equilíbrio de um corpo numa mente à beira da loucura de ti. Saber os teus dois nomes com a destreza de uma agulha a ferir um braço gentil. O poema, o último de todos, dentro desse sangue adocicado de tardes de Abril. O reencontro dos teus lábios de pássaros verdes. E estas imagens, sobre, sob a retina de um quotidiano laboriosamente impensado sobre a tua ausência presente ou um carrossel de pó a anunciar a nossa chegada.
MANUAL DE COMO DESCALÇAR SABRINAS A MENINAS
Quando descalçares sabrinas terá de ser com procedimentos cinderélicos. Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. Todos os pés de vento. Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. Prever o mais breve e inútil movimento no sistema esquelético. Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. Pô-los a tocar sob ameaça de tempestade. Sentar-te na margem dos rios sinoviais e atirar-lhes pedras. Pô-los a pensar sobre os caminhos – dar-lhes caminhos. Encontrar-lhes as faces e beijá-las nas suas destrezas. Retirar com cuidado e deixar pousar o pé sobre o chão.
Ana Salomé - Anáfora
Nas palavras de madrugar
«Ao romper do dia, apercebeu-se do que a rodeava, do corpo junto do seu; ele dormia, ou pretendia que ela o imaginasse. Obsidiana aconchegou-o no conforto das roupas. Quando acordou, estava só. Estendeu o braço para o lugar vazio e voltou a afundar-se num sono profundo, como se tivesse caído num abismo. Mais tarde, muito tempo depois, anos talvez, afirmaria para consigo deveria ter morrido naquela noite; não a orientaria, nesse aspecto, o negativismo, muito pelo contrário: sublimado o desejo pela ternura, poderia ter evitado a paixão para sempre.»
…
Com poucas palavras, Silverstein fala da relação entre o homem e a natureza, onde uma árvore oferece tudo a um menino que a deixa de lado ao crescer, ao mesmo tempo que se torna um homem egoísta. Mas para agradar ao menino que ama, a generosidade desta árvore não tem fim – ainda que isto signifique a sua própria destruição.
…
A Árvore Generosa – Shel Silverstein
SONO
adormeci
de cabeça
traída
e acordei
com o coração
magoado
só há uma
palavra
luminosa
que se deixa
em silêncio
o grito
no outono o vento
varre as páginas
aos pés de um livro
as gaivotas
são gavetas
de abrir e fechar
as ondas do mar
o amor é passar
a vida inteira
a amar-te
do outro lado
do mundo
e cara a cara
já não ter força
para dizer
amo-te
Só cá vim ver o sol – Joaquim Castro Caldas

«Deixa-me entrar na tua casa, sentar no teu sofá e chorar dias seguidos, sem parar, sem ter que parar, sem limpar as lágrimas alguém pode ver, sem disfarçar a dor, sem medo de ficar com os olhos inchados, o rosto disforme. Não tens que compreender nem te afligir. Sou só eu a ser aquilo que sou em certos dias da vida – inconsolável. Não quero o teu lenço, obrigada, nem o teu ombro, nem água, apenas chorar sentada no teu sofá, chorar no teu cenário, manchar a tua normalidade, gritar dentro dela, fazê-la tremer um pouco. Chorar também por ti que não choras e é preciso de vez em quando. Nem te emocionas, apenas te ris e te preocupas e és malevolamente bom».
SÚPLICA
(…)
A RODA

(…)
Paris nunca se acaba é uma revisão irónica dos tempos de aprendizagem literária do narrador na Paris dos anos setenta. Fundindo magistralmente autobiografia, ficção e ensaio, vai-nos contando a aventura em que se envolveu quando, numas águas furtadas de Paris, redigiu o seu primeiro livro. E revela-nos, por exemplo, como em parte escreveu esse livro graças aos conselhos para escrever um romance que lhe deu, resumidos numa folha simples, Marguerite Duras, a sua invulgar senhoria.
Paris nunca se acaba é também a história de como, na sua juventude, o narrador se radicou nessa cidade para imitar literalmente a vida boémia de escritor principiante de Hemingway, que ali foi “muito pobre e muito feliz”, e como, pelo contrário, o narrador foi muito pobre e muito infeliz.
(…)
Paris Nunca se Acaba – Enrique Vila-Matas
Observas o rosto hirto na vidraça
Porém, o que dói é a ausência de dor na face dos
Quais são as fronteiras entre a liberdade e a dependência? De que material erótico se faz a inocência? E entre o sonho e o tempo, entre o real e o quotidiano que o transcende, que teia se pratica? De que modo os símbolos se reflectem e se incluem no espelho das coisas?
424 Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?

Um lugar não é apenas um vestígio de uma antiga sombra
(…)
(…)
Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Num bar, um homem mata uma mulher. Mas este gesto só existe pelo fascínio que exerce noutro homem e noutra mulher que nem sequer testemunharam directamente e cujo significado não alcançam senão talvez inventando-o através da estranha embriaguez que a partir de então se apodera deles. Arrancados por aquele grito de agonia à ordem quotidiana, a essa vida «tranquila» onde já não há lugar para a esperança, o homem e a mulher encontram-se dia após dia no bar onde tudo se passou. Falam, imaginam que essa mulher quis ser morta pelo homem que amava, e o sentimento que nasce entre eles reencontra, assume esse desejo. Talvez venham a reviver a mesma história de morte e amor. Talvez… mas nem mesmo o romancista tem a certeza. Quem pode dar um nome ao que se passou entre esses desconhecidos, ao que se passa agora entre Anne Desbaresdes e Chauvin? Quem pode saber a forma que o destino dará a essa cumplicidade indecifrável? Talvez nem tenham outra história do que a de ter, por um instante, trocado essas palavras, posto as mãos uma sobre a outra, encostado as suas bocas uma única vez. Tudo está suspenso na expectativa de um acontecimento que não chega, de um acontecimento inimaginável. Tudo se verga ao peso de uma paixão que não sai de si própria, que não sabe sequer o seu nome.