do lugar dos outros

do lugar dos outros

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009











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Não é poema

não se escolhe: sente-se

um diamante vivo respira no centro do meu peito
sentes?
as suas faces espelhos onde me vejo
órgão rosto jóia
interrompem o ruído de uma maça trincada
que caiu súbita ao chão –

lembra-me que já fui carvão
cruz pregos martelo

sentes o hálito dos anjos?
aproxima-te
meçamos a voltagem dos metros sacros
entre golfadas

desejo-te como só as pedras:
rubra é a fenda
onde urge o magma
lava emerge à tona das nossas bocas
as carótidas dançam nas nossas bocas

não escolhi: sinto

reordenas todos os meus nomes
polindo todas as faces do diamante
com uma rosa dentro
enches-me o altar de frutos ternos
incandescentes rebentos brotam
constelações puras descem
… com harpa tão perto

de ouro se tecem as moléculas que respiramos
para polirmos mais diamantes

e assim o mundo adormece
em crepúsculos dourados

não penses


Suzana Guimarães

cràse - revista de literatura emergente – nº 0

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quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

(…) de repente, o caixão estremece, uma sombra levanta-se e caminha, sonâmbula, sai do quarto pela porta desenhada na parede.
o silêncio é definitivo.
eis o sofrimento da boca queimada pelo sarro oceânico.
a dor invadia-te. um cristal flutua no enxofre de remotas cidades.
sentias a tua mão abrir a porta desenhada.
sempre viveste em resíduos de cidades, ruínas da pele, finos cordéis de terra fértil, mistérios…

sentias uma feroz necessidade de ter medo, e pela casa atravessada de ecos, de lumes, respiravas. respiravas o ar insalubre do próximo porto.

permanecemos aqui, neste quarto, onde a escuridão é eterna claridade. fora deste lugar nunca viste o mar.
mas tudo isto se passou noutro tempo, noutro lugar. e a tua boca deixava na minha um travo de asas salgadas…
breves nuvens. o entardecer sobre o corpo estendido na erva fresca do sonho. abrias nas pedras fulvas da praia um sítio para esconder a paixão.
cansei-me de te sonhar. cansei-me do sangue e da chuva, da memória dessas rotas difíceis.
donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu.
encosto a alma à quilha do navio. deixo-me ir no vaivém das marés, e da fala.
a noite singra a pele.
e tu escondias a cara num pano branco e quando fitavas as mãos eu sentia medo de um deus.
estávamos sentados à sombra dos tamarindos. ouvíamos uma voz e não sonhávamos.
nenhum de nós sabia se o sonho, ou a morte, nos conduziria a algum porto de felicidade.

não me lembro o que aconteceu a seguir.
a noite deixava-se habitar por um silêncio escorregadio.
veio-me então ao pensamento o grande porto do sul onde aportaras e dizias ter sido feliz.
as horas começaram a cair umas sobre as outras, iguais, sem frémito, melancólicas.
quando te digo que vou de novo partir, perguntas-me: morre-se porquê?

caminhamos em direcções opostas. caminhamos sem destino pela cidade.
a febre aniquila-nos.
existem Índias por descobrir, no segredo da noite dos nossos desastres.
caminhamos neste espaço de penumbras e de incertezas – onde a fala já não cintila e as palavras são de cinza.

sobre as tuas mãos a sombra de um corpo, ou de um navio. o silêncio das viagens cumpridas. e no meio deste silêncio uma ideia de voz, uma treva agarrada à memória.

foi então que dei por mim a existir para lá da tua morte, como se asfixiasse. mas o passado não é senão um sonho. uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.
não vale a pena estar triste.
todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar.

um barco tremeluz nas cortinas do quarto.
o horizonte é negro. a luz do dia extingue-se subitamente.
as mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais – porque o tempo todo talvez esteja onde existimos, embora saibamos que nesse lugar nunca houve tempo nenhum.

O Último Coração do Sonho – Al Berto

sábado, 28 de Novembro de 2009


Bastava-nos amar. E não bastava

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

125 Poemas – Antologia Poética – Joaquim Pessoa

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terça-feira, 24 de Novembro de 2009



"Era uma vez... Um mundo" - Prémio Revelação em Literatura Infantil e Juvenil Matilde Rosa Araújo

A história de abertura do livro "Era uma vez... um Mundo", a “Cidade dos Fantasmas Felizes” está destinada às crianças dos 3 aos 5 anos e é um desafio aos sentidos. Apresenta-se a preto e branco e está permanentemente envolvida num jogo de sons, sensações e várias perspectivas e volumes. Da história não digo nada, pois se as crianças de três anos tiverem medo do escuro, rapidamente se apaixonarão por Escurinho e, de algum modo, aplaudirão a sua inteligência. Só quem não conhece o Escurinho é que pode ter medo de fantasmas.O segundo conto deste livro, “Uma cidade diferente”, destina-se aos primeiros leitores (5 aos 6/7 anos). Trata-se de um diálogo entre duas personagens principais, Flora uma fada linda e feliz, e Aurora uma fada linda e antipática. A ilustração desta história conduz o leitor a sentir as emoções das duas frágeis fadinhas. Será que elas conseguirão ajudar aqueles que as envolvem? Aqui a questão do que é realmente importante é colocado através de um desafio que surge em cada fala. Ora pergunto eu, ora respondes tu. Segue-se um conto fabuloso e hilariante, “ Uma cidade de vegetais”. Temos dois protagonistas, os irmãos brócolos Pepe e Pop num conto destinado aos leitores de 7 até aos 8/9 anos. É um conto que aborda a temática da Multiculturalidade e não só. Há uma clara abordagem à sociedade consumidora do fast-food, onde os legumes são postos ao lado do prato. Desta forma, somos levados a conhecer a vantagem dos legumes, embora seja feito de forma indirecta. Também se descobre a importância da diferença e o que pode levar a essa diferença, e ainda se faz uma breve abordagem à problemática ambiental. Com este conto irão viver uma aventura com um desfecho inesperado, pois só quem não conhece Pepe e Pop é que pode não gostar de vegetais. Por fim, o amadurecimento temático surge em forma de conclusão com “Safi e os ladrões de cavalos”. Temos ou não direito à diferença? Seja de ordem cultural, religiosa, política, geográfica, musical, estética e tantas outras formas que enriquecem o diálogo, a partilha. Estes jovens, talvez por estarem mais próximos dos mais pequenos, enriqueceram substancialmente um tema tão vasto e de uma forma tão simples e inocente, onde alguns adultos se perdem e não encontram a verdadeira essência da partilha e do quanto é enriquecedor sermos todos diferentes.

Paula Viotti

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Obrigada Paula.




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domingo, 15 de Novembro de 2009


“Porque a distracção é a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condição.

Há uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento; quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte.

A memória fácil do homem é apenas a sua recordação. Ela começa para cada um de nós naquilo que desde a infância lhe referenciou a vida. Mas a outra, a memória pura e que é apenas a vertigem das eras, eco de uma voz que transcende os limites do tempo, recuperando-se talvez aí, nesses pontos de referência, instala-nos todavia, porque o momento é de milagre, num passado e num futuro sem limites, reinventa-nos um acorde único, essa música milenária de estrelas e de nada, abre-nos à aparição da vida onde somos um breve ponto perdido, e a memória é assim uma pura vibração para os quatro cantos do mundo, uma pura expectativa de uma interrogação submersa. É então possível vencer a muralha concreta que nos cerca, a realidade imediata, os factos conhecidos ou relembrados, e acordar à distância ilimitada o eco dessa voz que nos transcende.

O sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o ar que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade – no que afirmamos ou negamos.

Só há um problema para o homem, só há uma forma de humanismo: a evidência de uma alegria final nos limites da nossa condição. Até lá, admito que tudo seja provisório e ingénuo.”

Vergílio Ferreira – Carta ao Futuro

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009



“Diz-me se te dói”


A percepção do que é necessário é um sinal de concessão às razões ordinárias que orientam a vida, que hoje não é mais que uma frenética escalada estética, tendendo à disseminação total de um sentimento de vulgaridade.
A assimilação exacerbada é de tal forma promovida que só conduz a um estado geral de apatia ignorante em detrimento da dúvida na sua natureza de incondicional. Trata-se do aproveitamento de uma sensibilidade extra levado ao extremo, aniquilando toda a hipótese de poder concretizar, por bloqueio face ao desvio do institucionalmente instituído.
A Dor pode ser aceitação, mas também é negação provocada, e ignorante, insensível por excesso.

“Diz-me se te dói” o corpo de escorregares na ladeira do tempo, se o lombo arde da procura constante, se te se rasga o nervo da pergunta. Tudo o que te poderei fazer é expor-te mais um ponto curvo na distância abrupta.
Colher palavras na estação quente não é um desporto, carregar a interrogação como ferramenta do sangue não cria músculos de mostrar. Se dói – e dói sempre mais – no escuro da incógnita, observa e aprende. Transporta e ergue-te na Vida que vai fugindo e pela qual perguntas.
A Dor não se suporta, fere-se no átrio do poema para que caia morta. Dela escorrerá a tua máscara e o calor do Outro, ultrapassada a pena e a comoção, armando-se a voz com a compaixão da força. Nasce todos de uma só vez e inspira. Não fujas à Dor, combate-a. Como se combatesses uma ferida na escrita que te faz doer. Porque nenhuma palavra é possível se a dor não abrir o teu pensamento ao que está a ser escrito. Sabes que o tempo se consome à temperatura da tua própria memória. Um tempo tecnológico que controla a acção criativa e a condiciona segundo as regras dos limites. Uma história indesejável, um poema distorcido por excesso de aquecimento mental, como se te queimasses na barra incandescente do tempo que demoras a pensar.
Escrever é uma cabeça enfiada num buraco. O que tu sentes é a pressão tóxica que te transporta de palavra em palavra num sufoco infernal que significa toda a escrita. Tento entrar nesse forno da tua imaginação. Esse espaço contemplativo que não suporta outra presença que não seja o teu próprio volume de inspiração. Em todo o caso a dor é uma inutilidade quando a estrutura do escrito não evoca nenhuma forma de segurança criativa.
Por outro lado, a escrita é um falhanço em todos os sentidos quando a dor não passa de uma dissimulação que procura no acto de escrever uma forma de utilidade. No entanto, escrever é ocultar metade do que se escreve. Ou ainda: que metade do teu corpo é a escrita que o teu corpo não escreve?

Sulscrito
Julho de 2008
Revista de literatrura

terça-feira, 27 de Outubro de 2009



(…)
Todo o longo verão eu repassava em mente aquele dia em que minha mãe, de dedos ágeis, ficara concertando duma velha garnacha de meu mestre uma sotaina de ordinando. Porque já estava decidido que iria cursar teologia na velha cidade do Bispo Azul. A despeito de minha surda repugnância, tive de render-me; rendi-me à força das coisas e, não menos, às boas razões de meu mestre.
- Libório – dissera-me ele – a vida é curta e a pobreza longa e negra. A grande questão é menos viver a nosso gosto, que viver sem custo. Quem está contente da sua dita? Não creias que as coisas revistam na prática a rigidez que se lhes inculca em teoria. O homem é pecador; porque não havia de ser natural e, portanto, escusável pecar o sacerdote? Não, não receies pecar racionalmente, sempre que a máquina de viver para aí torça. Entra para a carreira eclesiástica com ânimo de ser cumpridor, mas de modo algum a ser um jansenista. As leis têm a máxima tensão para que delas ressume algum domínio. Assim na Igreja; muito rigor, muita ameaça, mas tudo aparente, tudo invencioneiro! Deus é melhor do que o pintam os teólogos; fez a vida, sabe que se não pode vergar o curso à vida. Se outra relutância não tens que a de ver a tua existência mutilada dos raros gozos com que é lícito contar um leigo, não te detenhas. Nosso Senhor fez-nos o coração de molde a sentir o que é bom e a amar o que é belo. O que é preciso é não ser escandaloso, porque não é a paixão que deslustra o homem, mas o escândalo. Pode-se muito bem ser cauto sem pedir a Satanás a capa da hipocrisia. Muitos dos padres do meu tempo são honrados pais de família, e ninguém lhes pede contas de tal humanidade.
Estávamos no presbitério, à sombra das Carvalhas, e meu mestre, inadvertidamente, pôs-se a riscar com uma varinha o chão moído. Na fronte eu lia-lhe a serena filosofia do homem que divisa a tumba a seus pés.
- E olha – tornou ele – eu sinto, tu não sentes? o vento de tempestade que sopra esta terra de dez séculos. Longe vá o agouro, mas ia jurar que tristes dias vão amanhecer para ela, tão estimada que foi, noutros tempos, do Senhor. E verás, as cidades hão-de converter-se em charcos de desordem e de chacina. Por isso, mais vale o remanso da aldeola, onde os homens e as ideias sempre são menos feras que as feras! Deus mandou-nos viver, vivamos! Ou, noutros termos, fujamos da dor e da morte!
Com este e outros discursos e com o argumento esmagador de nossos poucos teres, preparou meu ânimo a requerer admissão ao Seminário. Minha moral havia-se amolecido e eu pensava que, ungido de ordens maiores, não sendo honesto cobiçar uma D. Estefânia, seria razoável amar uma Celidónia.
(…)


Aquilino Ribeiro – A Via Sinuosa

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009


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sábado, 3 de Outubro de 2009


Nila sentia o cheiro do fim do dia, um frio cru apertava-a, entrou em casa de Onina, regou os cactos, ficou em frente do espelho até chorar. Achou-se linda e decidiu.
Andou na cidade numa espécie da despedida falsa, a despedida de quem sabe que amanhã está exactamente no mesmo lugar e passeia sempre com o gesto guardado do último adeus.
Um nevoeiro ténue embrulhava os espaços, os jardins húmidos cheiravam a verde novo, as luzes amarelas e doces transpareciam das janelas, sentiam-se os passos dos inquilinos engaiolados. Na esquina, um buraco fundo e largo rodeado de tapumes furava a rua até à raiz do prédio. Nila pensou o que todos tinham pensado, mas achou que era para plantar uma palmeira gigante.
O guarda das obras tinha a cabeça entre as mãos, como os velhos nas janelas, estava sentado à fogueia, o fumo misturava-se com o nevoeiro e o cheiro quente da lenha agradou a Nila.
- Olá linda!
Nila parou a dirigir-se ao homem, ele baixou a cabeça e assobiou qualquer coisa.
- Chamou? – perguntou-lhe a mulher.
- Não, não, deseja alguma coisa?
Nila sentou-se no tijolo ao lado dele, o homem levantou-se rapidamente, e embaraçado disse:
- Sou o guarda da obra, está frio, se quiser sente-se e aqueça-se.
- Estou sentada, obrigada.
- Ah, pois! – e o guarda sentou-se também.
Os últimos autocarros passavam em grande velocidade, quase vazios, a lenha estalava, os olhos velhos e pequeninos do homem iluminavam-se com as chamas e o calor da companhia. Nila sorriu triste, tentou ver para lá do nevoeiro, falou porque lhe apeteceu ouvir-se.
- Saímos do palco da noite e entramos no carrocel do dia-a-dia, andamos às voltas, tudo gira connosco. De manhã lá está a girafa que escolhemos, parada na nossa frente. Tudo combinado. É só entrar e mais uma voltinha. Preferimos o palco. Quem é o mais? Eu, gritou o bêbedo. Eu, grito eu. E amanhã, pelo menos dizem: é extraordinária. Eu sei do meu medo e eles não sabem que me sentei exactamente em cima da girafa que escolhi na véspera. E o carrocel parte. Tudo é igual ao igual do palco que trazemos pendurado ao peito, disfarçado de cruz ou figa. Ou corno.
- Desculpe não percebi, a senhora é artista?
- Posso deitar-me consigo ali dentro?
O homem olhou para Nila, torceu as mãos, espiou as máquinas e fingiu.
- Hã!?
- Posso deitar-me ali consigo?
O homem voltou a espiar as máquinas, os tapumes e disse:
- Eu sou o guarda.
- Vamos!
Deu-lhe a mão e, quando entraram, ele apenas repetiu que era o guarda.
Nila despiu-o como se fosse uma criança, beijou-lhe o corpo. Os braços até ao cotovelo, o rosto e o pescoço eram morenos, tinham uma cor quente, o resto do corpo era violentamente branco, quieto, quase puro. Daí a pouco a barraca de madeira do guarda estremeceu como se as máquinas entrassem em movimento, mas o prédio não lhes sentiu o barulho dos motores. Um perfume fino envolveu as picaretas, as pás, as botas e a perfuradora encostada ao fundo, entre o divã e a parede. A noite passou depressa. Quando os primeiros operários chegaram, o guarda estava ainda na cama e perguntou-lhes a que cheirava. Um deles pegou na perfuradora e no limiar da porta respondeu-lhe com cansaço:
- A ratos mortos.

Margarida Carpinteiro – Ninguém Morre de Véspera

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009


Quinto Poema do Pescador

Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber de Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre – Senhora das Tempestades

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009



Talvez seja uma possibilidade.
O poema é um talvez.
Quem recolhe a rutilância
da cor quando o pensamento é vivo
num momento de aspirada glória?
Só um ser que se recolhe surpreende as águas
e concentra em si o negro e o ouro de uma corola inicial.

antónio ramos rosa – horizonte a ocidente

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domingo, 2 de Agosto de 2009


(…)

Um ano, no natal, Sempere deu-me o melhor presente que recebi em toda a minha vida. Era um volume velho, lido e vivido a fundo.
- «Grandes esperanças, de Charles Dickens…» - li na capa.
Tinha ouvido dizer que Sempere conhecia alguns escritores que frequentavam o seu estabelecimento e, pela ternura com que manuseava aquele volume, pensei que talvez aquele senhor Charles fosse um deles.
- Um amigo seu?
- De toda a vida. E a partir de hoje, teu também.
Naquela tarde, escondido debaixo da roupa para que o meu pai não visse, levei o meu novo amigo para casa. Aquele foi um Outono de chuvas e dias de chumbo durante o qual li Grandes Esperanças umas nove vezes seguidas, em parte porque não tinha outro à mão para ler e em parte porque não acreditava que pudesse existir outro melhor e começava a suspeitar que o senhor Charles o escrevera só para mim. Não tardei muito a ter a firme convicção de que não queria fazer outra coisa na vida que não fosse aprender a fazer o que fazia aquele tal senhor Dickens.
Uma madrugada acordei de rompante, abanado pelo meu pai, que voltava do trabalho antes do tempo. Trazia os olhos injectados de sangue e o seu hálito cheirava a aguardente. Olhei para ele apavorado, e ele apalpou com os dedos a lâmpada nua que pendia de um fio.
- Está quente.
Cravou os olhos em mim e atirou a lâmpada contra a parede, enraivecido. O vidro desfez-se em mil pedaços que me caíram na cara, mas nem me atrevi a arredá-los.
- Onde está? – Perguntou o meu pai com voz fria e serena.
Abanei a cabeça, a tremer.
- Onde está esse livro de merda?
Voltei a abanar a cabeça. Na penumbra, mal vi chegar a pancada. Senti que perdia a visão e que caía da cama abaixo, com sangue na boca e uma dor intensa, como que um fogo branco a arder-me por detrás dos lábios. Ao virar a cabeça vi no chão aquilo que calculei serem dois dentes partidos. A mão do meu pai agarrou-me pelo colarinho e levantou-me.
- Onde está?
- Pai, por favor…
Atirou-me de cara contra a parede com toda a força e o golpe fez-me perder o equilíbrio e abater-me como uma carga de ossos. Arrastei-me até um canto e aí fiquei, encolhido como um novelo, a ver o meu pai abrir o armário e deitar ao chão as quatro peças de vestuário que tinha. Revistou gavetas e baús sem encontrar o livro, até que, esgotado, voltou de novo para junto de mim. Fechei os olhos e encolhi-me contra a parede, à espera de outra pancada que nunca chegou. Abri os olhos e vi que o meu pai estava sentado na cama a chorar de asfixia e de vergonha. Ao ver que eu olhava para ele, saiu a correr pelas escadas abaixo. Ouvi o eco dos seus passos que se afastavam no silêncio da madrugada, e só quando soube que estava longe é que me arrastei até à cama e tirei o livro do seu esconderijo debaixo do colchão. Vesti-me e, com o romance debaixo do braço, saí para a rua.
Descia um pano de bruma sobre a Calle Santa Ana quando cheguei à porta da livraria. O livreiro e o filho viviam no primeiro andar daquele edifício. Sabia que às seis horas da manhã não eram horas de tocar à campainha da casa de ninguém, mas o meu único pensamento naquele instante era salvar o livro e tinha a certeza de que, se o meu pai o encontrasse ao voltar a casa, o destruiria com toda a raiva que tinha no sangue. Toquei à campainha e esperei. Tive de insistir duas ou três vezes até que ouvi a porta da varanda abrir-se e vi o velho Sempere, de roupão e pantufas, assomar, atónito. Meio minuto mais tarde desceu e veio abrir-me a porta e, quando viu a minha cara, toda a expressão de aborrecimento se evaporou. Ajoelhou-se à minha frente e agarrou-me pelos braços.
- Santo Deus! Estás bem? Quem te fez isso?
- Ninguém. Caí.
Estendi-lhe o livro.
- Vim devolver-lho, porque não quero que lhe aconteça nada…

(…)

Carlos Ruiz Zafón – O Jogo do Anjo

sexta-feira, 17 de Julho de 2009



EMBRIAGA-TE

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: «São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.»


Charles Baudelaire – O Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)


segunda-feira, 13 de Julho de 2009



PEDRAS

Da mesma raça, satânica, poderosa
família, os nossos
olhos; diria seres com a beleza e a crueldade das pedras
e das cobras; a impotência e a sorte
de se voltarem
para a arte com uma lucidez
desesperada.
Seres inquietos e divididos; conturbados, e por isso mesmo capazes
de sobreviver à mais venenosa
orfandade; uma vez o nosso parentesco foi sempre
mais que anunciado.
Que ele te não afaste da «inefável falta que sobe dos filhos
aos pais», pois, e em verdade, em verdade, somos
cobras: idênticos,
iguais.
Em silêncio, no bater do coração, ouso implorar-te:
Escuta, uma cobra é uma cobra uma cobra
uma cobra
e deve ser esmagada antes que o veneno
nos incuta.
«Não me mordas», pedes.
Vem, de onde, esse temor? Do não quereres tomar conta
do menino que fugiu da «tormenta
nocturna que se fazia negrume diante dos seus
olhos?»
Sossega. Não tos fecharei. Não te morrerei.
Não te morderei.
Se for capaz.
De amar-te. Como o fazes e na rebeldia
dos mais sinceros e transparentes
sinais.

Cobras. Somos cobras.
Somos olhos: Poetas. Nada
mais.

Eduarda Chiote – O Meu Lugar à Mesa

(prémio Teixeira de Pascoaes 2006)

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sexta-feira, 3 de Julho de 2009

desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
assopra ao sabor da substância das águas que não sendo lágrimas são a
cal suspensa dos lábios. que sendo casa são delírios que o vento arrasa.

que não sendo corpo é a tua asa sobre um relâmpago que é a nossa chegada.

íngreme o destino do instinto das tuas pupilas. onde me desenhas um
sinal. que sendo recente é antigo. próximo da música longe das estátuas.

que te abrasam como palavras cegas…tão dolorosamente cegas.

e se é ao sul que os animais se estendem ao sol estendo-te a memória.

faz-me um nome. um só que seja. só uma sílaba. tu sabes que a morte é
um grito. sufocado e laço. nó que te desato. para que me sejas o
assombroso movimento de um bicho de seda. distância lenta na tua
pele. sempre adiante.

sempre pálpebra delicada…macio dedilhar onde te cuido a favor do
tempo…taça de espuma selvagem onde te declaro mais puro.
e se disser que te amo? como ilha convulsiva?
e se disser que me és MAIOR na orla das marés e que me invades como um
osso fino…que dirás amanhã…quando o dia te fizer carta ou pássaro?


Os dias do amor – Isabel Mendes Ferreira

quarta-feira, 17 de Junho de 2009


AS CANDEIAS

O perigo dos espelhos é exporem-se os ossos.
A luz reflui através das omoplatas, distribui-se
pelos flancos, concentra-se nos pés.
De alto a baixo somos vivas candeias acesas.
Entramos na obscuridade com o fascínio
de um dom próprio.
Não possuímos um deus, mas duas mãos lisas
e uma boca de vidro – e uma voz
que vai morrer.

Fazer estalar a amnésia, pouco a pouco,
ou de um só golpe. Ninguém acorda
senão numa sala de pânico.
Levas o dedo à ferida: uma fechadura.
E, rodando o dedo, há por baixo
uma tulipa aberta,
decifrada.
Podias amar concretamente esta dolorosa,
solitária investigação dos interiores,
as malhas soltas da luz.

Porque o mundo é um contínuo acto de costura.
Rompemos com o mistério apenas para
que se teça um mais alto e apaixonante enigma.

Tudo o que nos fulmina, cresce devagar.
Entende-se que seja assim, trôpego, o existir?
Não, não temos uma súbita iluminação,
mas recantos e recantos, penumbras
- e uma voz exausta que vai
morrer.

Vasco Gato - Imo

domingo, 31 de Maio de 2009

(…)

Dois corpos.
Dois corpos não carecem de mais do que da fugidia linguagem dos sussurros, dos beijos que eriçam a pele, dos arquejos que preparam a doce deflagração de um amplexo. O idioma topográfico da epiderme transpirada é o único que importa – o único que é preciso dominar quando não se trafica mais do que o amor. Que diferença faz se esses dois corpos não são capazes de se entender plenamente utilizando o vago código das palavras? Que importa a gramática de raiz latina quando duas bocas estão demasiado próximas para que qualquer vocábulo possa ser dito?
Será esta comunicação sem regras aquilo a que chamam paixão? Será o verdadeiro amor aquele que as palavras não macularam ainda? Sabem estes amantes que todo o tempo do mundo é mais tempo do que uma eternidade? Que ao dizerem “para sempre” não exprimem mais do que a fugacidade de um fósforo que já começou a arder?

(…)

Que magia fez com que nos amássemos? Que poderosa vibração nos atirou para a temerária fronteira onde descansam os deportados da terra onde se não pode amar de mais, onde se não crê na possibilidade de amar excessiva, insanamente. Lembras-te? lembras-te de ter dito que não há outro modo de gostar que não seja este, desabrido, e que não acredito que ao resto se possa chamar amor? Que só ama quem gosta à maneira antiga, fora de moda; os que escrevem cartas, os que cultivam olheiras, os que sofrem loucamente e são capazes de morrer de amor. Tu sorrias. Sorrias com aquele teu sorriso leve, feliz e pálido – sorriso de quem sabe que toda a felicidade é passageira, de quem pudesse ler no pouco que dizia o muito que queria dizer.

(…)

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.

(…)

Dizias que
- Quando penso em ti vejo-te com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes. Às vezes tens os olhos fechados e estás a dormir, mas o que interessa é que é assim que eu penso em ti: com a cabeça pousada nos meus joelhos, quieto, enquanto passo a mão, devagar, pela escova mole dos teus cabelos.
Lembras-te?
O meu cabelo já não é uma escova mole. Não te direi sequer, como então, que a sinceridade dos meus sentimentos é uma coisa passageira. Apenas que ainda me agrada a ideia de ser recordado assim. Que ainda sou, se me quiseres, o teu
- Piú grande amore del mondo.
Lembras-te?
O meu cabelo já não é uma escova mole. Mas eu sou um velho parvo, amor.


Manuel Jorge Marmelo – O Amor é para os parvos

sábado, 30 de Maio de 2009

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Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.
Ouviu: - Não fujas. Não esqueças.
Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.


Filipa Leal - A INEXISTÊNCIA DE EVA

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domingo, 24 de Maio de 2009







sábado, 9 de Maio de 2009

O destino

Diria facilmente que o destino é uma imagem retirada do domínio geográfico, o da separação das águas – o famoso continente dividido a partir do qual, nos Estados Unidos, certas águas partem para o Pacífico e outras para o Atlântico. Por essa divisão, num determinado momento, dois elementos separam-se irreversivelmente, segundo parece, e não mais voltarão a juntar-se. A separação é definitiva. Qualquer coisa ganha forma de existência, qualquer coisa não a toma – e o que não nasceu ao mesmo tempo tornar-se-á noutra coisa, e assim permanecerá.
O destino seria uma forma de separação definitiva e irreversível. Mas uma espécie de reversibilidade que faz com que as coisas separadas permaneçam ainda cúmplices. O ultramicrofísico fala ao mesmo tempo da separabilidade e da inseparabilidade das partículas. Para lá de como se afirmam, e muitas divergem definitivamente, cada partícula permanece ligada e conectada à sua antipartícula. Não saberei levar muito longe esta comparação, mas sem dúvida que ela nos dá bem conta do que se revela como destino na tragédia, onde é a forma do que nasce e do que morre sob o mesmo signo. E o signo que conduz à vida e à existência é também o mesmo que conduz à morte. Portanto, será sob o mesmo signo fatal que as coisas começam e acabam. É o sentido dessa célebre história que é a morte em Samarcanda… Na praça de uma cidade, um soldado vê a morte fazer-lhe um sinal, fica cheio de medo, vai ter com o rei e diz-lhe:”A morte fez-me um sinal, eu fugi para o mais longe que pude, fui ter a Samarcanda”. O rei convoca a morte para lhe perguntar porque tinha amedrontado o seu capitão. E a morte responde-lhe:”Não lhe quis meter medo, mas queria apenas lembrar-lhe que esta noite temos encontro em Samarcanda”. O destino revela assim uma forma de certo modo esférica: quanto mais se distancia de um ponto, mais dele se aproxima.
O destino não tem a bem dizer certas “intenções”, mas por vezes temos a impressão de que enquanto se desenrola uma vida de glória e de sucesso, em qualquer parte, obscuramente, um dispositivo trabalha ao contrário e faz escurecer, de forma imprevisível, a euforia no drama. O acontecimento fatal não é o que se pode explicar por diversas causas, é antes aquele que, num dado momento, contradiz todas as causalidades, que chegam de algum lado, mas possuem esse destino secreto. Assim, podemos encontrar certas causas na morte de Diana e procurar reduzir o acontecimento a essas causas. Mas trata-se sempre de um álibi convocar as causas para justificar os efeitos: não se esgotará dessa forma o sentido ou o não-sentido de um acontecimento. Ora, neste caso, o que constitui o acontecimento é um retorno do positivo em negativo, essa mudança que faz com que, quando as coisas se mostram muito favoráveis, tornam-se funestas, como se despontasse em silêncio uma força sacrificial colectiva. O destino é sempre o princípio de reversibilidade em acto. Neste sentido, diria que o mundo nos pensa, não através de uma forma discursiva, mas ao invés, contra todos os nossos esforços para o pensar a seu respeito. Cada um de nós poderá encontrar facilmente alguns exemplos, porque mesmo nas próprias coincidências existe toda uma arte. Quando a psicanálise fala de lapso, de substituição de palavras como a palavra espírito, isso deriva também de uma arte da coincidência: num dado instante existe uma sedução estranha entre os significantes e é isso que torna psíquico o acontecimento.
Mas eu imaginaria facilmente, como o oposto desse universo por inteiro informatizado, que nos permite ver ou prever, um mundo em que não houvesse mais coincidências. Um mundo assim não seria um mundo do acaso e da indeterminação, mas um mundo do destino. Sim, todas as coincidências se revelam de alguma forma predestinadas e impor-se-iam ao destino, ao que tem uma clara finalidade, o destino, ou seja, o que possui um destino secreto, uma predestinação, sem um sentido religioso. A predestinação diria: determinado momento está predestinado a um outro, esta palavra a uma outra, como num poema em que sentimos que as palavras tiveram sempre tendência para se juntarem.
Do mesmo modo, na sedução existe uma forma de predestinação: entre o feminino e o masculino, não penso que haja apenas uma relação diferencial, mas existe também uma forma de destino. Estamos sempre destinados ao outro, é uma troca, uma forma dual e não, contrariamente à concepção que geralmente se tem, um destino individual. O destino é essa troca simbólica entre nós e o mundo que nos pensa e nós pensamos, em que têm lugar essa colisão e essa colusão, essa telescopagem e essa cumplicidade das coisas entre si.
Reside aí pois o crime e a dimensão trágica. A punição é infalível: existirá uma reversibilidade que fará com que alguma coisa de si seja vingada. Canetti declara:”A vingança não é só o desejo de a querer, mas ela far-se-á e faz-se automaticamente pela reversibilidade das coisas”. Tal é a forma do destino.

Jean Baudrillard – Palavras de Ordem

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

o mergulho de profundidade não deve ser confundido com a introspecção. apesar de o seu objectivo ser o mesmo: o corpo profundo, afundado. o objectivo não é reflectir sobre os objectos submarinos, trazê-los à superfície, para depois os analisar, com os instrumentos. extrovertidos. nas mãos fantasmas; mas afundarmo-nos num leito de destroços. e não contar a ninguém o que vimos. nas planícies. que se prolongam sob a abóbada da pele nocturna. e virmos à superfície por ar. apenas quando ardem os pulmões.

Tiago Araújo - FÓRMULAS

sábado, 18 de Abril de 2009


um dizer ainda puro

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato – Um mover de mão

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
à passagem do tempo. A juventude é um vício
que perdemos inevitavelmente. Dizes: é breve o amor,
efémera a vida.

Somos uma estância museológica,
algo anacrónico que aprende a perdurar por medo
de morrer. Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvida, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

Basta-me que o teu olhar me encontre.

José RuiTeixeira – Para Morrer

quarta-feira, 8 de Abril de 2009



somos iguais em todas as metamorfoses, percorremos os mesmos lugares. a cidade cansou-nos gota a gota de um anestésico perfeito e não queremos partir. estamos suspensos numa teia tecida com cabos de aço que nos ligam a pessoas e edifícios. deslocamo-nos pela tensão de uns cabos sobre outros, num ritmo não natural, como o de uma marioneta que se cria a si própria. estamos sentados na cama, com a mala ainda vazia dos objectos espalhados pelo quarto, a sensação de que não chegaremos a partir e de que já só podemos ser diferentes noutro lugar.

Tiago Araújo - Livre Arbítrio


sábado, 4 de Abril de 2009



queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro sena-lino – zona de perda livro de albas

terça-feira, 31 de Março de 2009



Assim se despedem os pássaros do Inverno
Sepultam uma terrível palavra no teu sangue
E guardam silêncio sobre tudo o que lhes foi revelado.

Luís Falcão – Pétalas negras ardem nos teus olhos

sábado, 14 de Março de 2009



eu sei: o medo é um mover contíguo à inocência onde
continuamente morremos
como pequenos pássaros fugitivos
basta ler nos teus olhos que as estações são lugares
de passagem e quem as habita será sempre
um estranho que colhe magnólias dos carris


isabel coelho dos santos – o tempo mais puro

domingo, 8 de Março de 2009



ETERNIDADE

Faço com as mãos
o destino das coisas
que me cercam

Tomando devagar o tempo incerto
Quebro e desarrumo

Perco


Maria Teresa Horta - Destino

terça-feira, 3 de Março de 2009


...

"O livro que é feminino reveste-se de um ondeamento. Coloco a mão sobre ele, e o meu contacto é directo. O livro que é masculino atrai igualmente a minha mão, mas contenho-me um pouco porque ela fica a oscilar num gesto que não entendo."

...

Maria Gabriela Llansol - Amigo e Amiga (curso de silêncio de 2004)

sábado, 28 de Fevereiro de 2009


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(MESMO QUE AS TUAS VEIAS GELEM)


Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo,
na orla infinita da tua mão,
no teu ombro, que é uma espada.
Na tua língua, que é a minha.
Só o teu coração saberá
se é
promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.

Lourdes Espínola – As Núpcias Silenciosas
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quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Começo as manhãs de branco
e não sei nada

costurando pedaços separados
como será o fio dos dias
os orifícios do espaço
abertos como tempos cercados?

no abraço interno doce deitado
não sei nada


Na memória dos pássaros – Graça Magalhães
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sábado, 31 de Janeiro de 2009


O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume. Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão. Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica - nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante.

Faíza Hayat – O Evangelho segundo a serpente

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segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009



Regressas pelos espelhos abraçado à névoa de um tempo breve, aproximas-te da superfície, contemplo o rosto emergente, nenúfar lançado no vórtice de círculos concêntricos; recordo um perfume.

Necessário seria conheceres evanescências incrustadas na porta sólida da memória: e sempre me detenho no umbral. Como explicar a recordação de ti, de nós sabemos sempre pouco, nada de nossas auras, eflúvios, deles nos falariam outros quase sempre mudos ou desinteressados. A avidez, atenta, com dedos longos arrepanha, puxa para si, sortilégios abandonados por complacência, selecciona-os, guarda-os como avarento para possibilitar-se pequenas trocas, comércio mesquinho com os que experimentam fome de nós. Por ela te recordo, olho, inebrias, inquietas.

Os espelhos de nada sabem na superfície lisa.

Ter-se-ão agitado quando mergulhamos neles as nossas imagens enlaçadas, retido o nosso olhar? Dois espelhos venezianos, distanciados de uma parede a outra parede, trocaram-se imagens em jogos de eternidade, nada mais. A fragilidade habita os espelhos, em nós se enreda, por isso te digo, Amado, o tempo urge, passa, goteja e engana. Pensa clepsidras, relógios de sol, analisa atento urgências e desvarios, medo e fuga: submete-os.

Aguardarei, Amado, a hora em que os espelhos parecem negros e fundos como cisternas, e experimentarei o queixume, talvez regresse o eco de palavras escutadas em ressonâncias doces, e sofro a tentação de destruí-los para ver-te em mil reflexos. Lanternas na noite, doem-me os olhos na intermitência: se o desespero me ergue as pálpebras, a tristeza neles me pousa os dedos de seda.

A claridade vai alterando o cenário: vejo a cadeira onde sentado sorriste; ajoelhada descalcei-te.

(que dizer da Morte para além do luto, dos sinais visíveis ou risíveis, dela nada sei, sim do silêncio-dique, de torrentes de palavras sempre desviadas de seu curso, nunca em ti desaguando.)

Atravesso desertos, Amado, não os que atravessas; assim, o desencontro.

Filomena Cabral - AMATUS

sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009



(…)

Paixão inenarrável plena de sustos e refúgios. Em vão, direi cardumes iridescentes e velozes, o emaranhado de vibráteis remos minúsculos em seus flancos. A dor indescritível escorada na ausência, a beleza intoxicadora dos sentidos, o véu húmido em teus olhos, a linha inapelável dos lábios. Separam-nos muros de gaze onde esfacelaríamos os dedos, porventura ausentes, ávidos ou tristes, assustados na presença da mão. Inocularia em ti a surpresa do gesto, a delícia de deixar-me escorrer pelos teus contornos, tomada de assalto por nuvens graníticas de ilusões sedimentadas e frustradas, endurecidas pelo tempo redutor.
Poderia abandonar-te junto de nardos, confundido em sua brancura ou outra cor, em evanescências múltiplas, e nelas incluiria o odor de um corpo adormecido tingido de desencanto, o rosto enfeitado de cristais inesperados.
Como rio surdo à própria passagem, devoras a distância fluida e contornas pequenas ilhas solitárias, afagando-as e afogando-as na brandura irresistível de abraços densos. Teimo em divisar os pés dos deuses, sempre os escondem entre floras estranhíssimas; dos lábios talvez lhes pendam luas pequenas em quarto minguante mostradas no avesso de si.
Gostaria de narrar a dor, desmontar o medo, contudo cavalgo em seu dorso: as mãos esfaceladas claudicam.
Flutuo no silêncio, imponderável, na pretensão do sopro, diviso-me submersa no desejo, esbracejante e frágil, ansiosa como afogado: aguarda-me uma praia e não sei se distinguiria os teus ombros idênticos a fluidas muralhas, ausentes de besteiros e despidas de pequenas ervas tenras e frágeis, trama de tapete irresistível.
Tudo o mais seria paixão inenarrável, desabitada, com as marcas de todas as dores e prazeres, deixadas por outros nómadas, sedentos de paisagem como tu. Assim eu.
Os deuses entenderam atribuir aos homens a dor como alimento indispensável, mesmo que pelo seu contrário. O prazer transborda, afoga e desaparece, absorvido pela presença insubstituível do corpo, pele, ou na ausência cantada, vibrátil, forjada em presságios: assim o regresso fatigado, ou insofismável refúgio.

(…)

Filomena Cabral – Elegia para um corpo adormecido

quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009



Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Albano Martins – Palinódias, Palimpsestos

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009



(…)

A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo – como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar.

(…)

A História de Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008



SEM VITÓRIA, VIVES COMIGO.
pequena
e carregada.

Só lá fora, onde
as nossas almas ainda estão, na terra de ninguém,
é que se canta. Canta-se
no brilho
daquilo que passou ao nosso lado.

Nem nuvens, nem estrelas – nós
não olhamos para cima.

Chega-te mais, anda:
para que não sopre duas vezes o vento
através da nossa casa aberta.


Paul Celan – A Morte é uma Flor

domingo, 28 de Dezembro de 2008



NEVE

Oiço-te na extensão do sono
com dificuldade. O inverno, a neve
que nele havia, arde.
Era tão branco tudo: astros,
árvores, até as aves
que se abrigavam não sei
em que alpendres. E chamavam,
chamavam da brancura da neve.
Nenhum muro, nenhuma porta,
só a voz que chamava, doce
e pequena voz, a querer
partilhar comigo
o inverno, a neve, o mundo
amanhecendo, anoitecendo, branco.


Eugénio de Andrade – Os Sulcos da Sede

segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

«Eram tão lindos, tão suaves os dias femininos ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.
Quando amassávamos o barro vermelho e ecoavam na tarde sons de lume e o vento cheirava a pão, quando olhávamos juntos, do nosso quarto andar, as estradas cor-de-rosa do crepúsculo, parecia, parecia apenas, que não havia segredos entre nós.»

Violeta e a Noite, de Urbano Tavares Rodrigues

domingo, 14 de Dezembro de 2008

na suite EPICURE

Tu disseste para eu guardar o silêncio neste quarto. Para que nada dissesse, nem o teu nome. O teu corpo ondulava e eu aceitei a ausência. Disseste para eu nada pedir, para não nomear, não ter nenhuma palavra, nem exclamação, nem sorrisos, para não estar morta também. Para te responder com as mãos, silenciosas, os dedos a baterem-te como a chuva, tão de leve.

Estás suspenso, leve e suspenso e quente, portanto vivo, que surpresa! Só te envolves no berço, sem palavras, como antes delas, com o rosto amado a devolver-te um sinal de reconhecimento. Voltas a fechar os olhos, aninhas-te nos meus braços como se não me visses nunca, como se eu não existisse fora desse abraço por dentro. O meu cheiro como uma palavra acariciando a criança em ti, toda, e a curva da nuca abandonada. O peso tímido da tua cabeça a furar-me a pele, a quebrar-me o peito. Mordes a memória do leite, mexes os lábios, dói-me a secura. Não digo nada, o queixume é já desejo. Tem de ser plano e eterno este tempo, como se a morte pudesse roubá-lo se o dissesse. Não me pedes nada, e nem ousas a violência.

Ocultas tudo para que seja como antes do sono, um mergulho lento, desmembrado, com a aprovação de todos. Os lábios são doces, não procuram, conhecem a felicidade, provam com a língua, provam mais, redondos, enrolados, enormes como o quarto, com a cama que se afunda e nos leva, líquidos, desfeitos um no outro, numa celebração comum, silenciosa, não nomeada. Um abraço sem gestos, só um equilíbrio ténue, frágil.

Escorregamos sem esforço, não sei onde caímos, é a tua memória que nos guia, é o meu silêncio, todo o consentimento e o dom do teu acolhimento para que tudo aconteça longe daqui, sem eu nunca saber onde me levas e vou.
(...)

Devia contentar-me de ter areia escondida
nas pregas da carne e de o não saber.
À noite, passo a mão espalmada por toda a cama
e encontro vento e mar no meu lençol.
sempre sorrio desse facto.
Não consigo ainda deitar-me e ficar feliz
sabendo isto tudo.


Um adeus perfeito – Lídia Martinez

sábado, 13 de Dezembro de 2008



(…)
O abraço entre a flor e a borboleta é um abraço
doce como o néctar, mas bem curto e breve.
A flor, quieta, espera a chegada da borboleta
e deixa-se abraçar.
A borboleta passa rasando a flor,
acaricia-lhe as pétalas e segue.

(…)
A linguagem dos abraços
não contém quaisquer palavras,
nem é vazia de sentido.
Acima de tudo, o que nós desejamos nela,
é que o nosso abraço seja eterno e infinito.


Michal Snunit – Vem e Abraça-me

quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008



DIÁRIO À NOITE SUPOSTA

(Primeiro dia)

Lembro-me bem: este poema começava a falar de uma estrela.
Era uma estrela no início da imagem. Uma estrela a fugir-me da possibilidade do verso, a fugir-me do íntimo conforto em que a tinha. Estrela a ferir-se nas mãos, a ferir-me nos olhos, estrela.

(Primeiro dia)

Disseste: vou escrever um livro para te esquecer.
Para te encerrar como um assunto.
Para te matar.

Lembro-me bem: disseste exactamente o contrário
mas hoje custa-me acreditar nisso.

Disseste que nele contarias o nosso amor
porque a literatura tem esta presunção de eternidade
e depois deixaste-me e eu já não me lembro bem por quê.

(Primeiro dia)

Eu não tinha estrutura, não tinha claridade.
Eu não tinha holofotes que chegassem, braços que chegassem.

Eu não tinha luz.

Uma estrela, já se sabe, precisa de luz. Alimenta-se da sua circunferência,
do seu tom periférico. Uma estrela precisa de iluminar.
Foi isso. Foi a minha noite. Foi a minha falta de jeito.

(Primeiro dia)

Disseste: Vou escrever um livro para continuar.
Para continuar sem ti.
Foi isso que disseste?

(Primeiro dia)

O que eu queria mesmo era escrever para me salvar.
Para não ter medo.
Para te perder melhor.


Filipa Leal – O Problema de Ser Norte

domingo, 7 de Dezembro de 2008


Lembro-te: alguém no amor precisa de estar nu para mostrar ao outro que está demasiado vestido.


Eduardo White – Dos limões amarelos do falo às laranjas vermelhas da vulva

domingo, 30 de Novembro de 2008

“O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno. Não basta porém compreender; trata-se de tentar ir até ao fim de todas as galerias obscuras, de procurar abrir algumas portas – quer dizer, no fundo, tentar sobreviver. O nosso universo de cimento e de ramificações eléctricas não é simples. Quanto mais se pretende explicar, mais ele se nos escapa. Viver por dentro, hermeticamente fechado, seguindo os impulsos mecânicos, sem procurar trespassar estas muralhas e estes tectos, é mais do que inconsciência; é expormo-nos ao perigo de sermos pervertidos, mortos, tragados. Sabemos hoje que não há verdades; apenas há explosões, metamorfoses, dúvidas. Bem entendido, queremos abalar. Mas para onde? Todos os caminhos são parecidos, todos são um regresso ao próprio indivíduo. É pois preciso procurar outras viagens.”

(…)

“ Seria preciso falar desta experiência como se fala, por exemplo, do mar. O mar estava presente, todos os dias com ele convivíamos, víamo-lo, pensávamos nele, mas não sabíamos o que queria dizer. O mar, porém, sabia. Era ele que cercava as cidades, era ele que organizava os pensamentos dos homens, que regulava as suas músicas, os seus quadros e os seus poemas. E não o contrário. Como imaginar uma coisa destas? Quando a gente se servia das palavras da linguagem, e na folha branca as alinhava, não nos dávamos conta de que alinhávamos conchas. E o que um dia se descobre, sem se dar por isso, só por se estar sentado num rochedo diante do mar, é que a experiência dos homens está incluída na experiência do universo. E isto, verdadeiramente, é terrífico, e ao mesmo tempo é aprazível, porque nessa altura muitas palavras surgem, muitas palavras desabam. Quer isto dizer que a linguagem é uma expressão do universo modificada pela boca dos homens, uma linguagem por assim dizer interpretada, e cujo original há-de sempre ficar sem tradução.”

(…)


ÍNDIO BRANCO – J.M.G. Le Clézio

domingo, 23 de Novembro de 2008



Da abertura:

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma re-leitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem con-vive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
(…)

Do capítulo 2 – nós somos águias!

(…)

“Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar num filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…
(…)

Leonardo Boff – A águia e a galinha (uma metáfora da condição humana)

sexta-feira, 21 de Novembro de 2008



ANÚNCIO

A expectativa de me fugir um breve instante de respiração. Surpreender-me num ritmo acelerado de corrida de bicicletas perante um coração fraco. Varrer-me o vento na sua simplicidade de falta de palavras. A expectativa desse mesmo instante. O deserto quase-azul escuro dos teus olhos semicerrados. Essa estrada que me espera durante as próximas horas de existência com as canções de um cristalino zumbir de abelhas ao vento. A crina de um incidente. A tua presença absoluta num espaço contíguo. A saída de emergência de uma distância inesgotada diante de uma pedra esculpida com a precisão de segundos de erosão, imensamente terna e dolorosa. O equilíbrio de um corpo numa mente à beira da loucura de ti. Saber os teus dois nomes com a destreza de uma agulha a ferir um braço gentil. O poema, o último de todos, dentro desse sangue adocicado de tardes de Abril. O reencontro dos teus lábios de pássaros verdes. E estas imagens, sobre, sob a retina de um quotidiano laboriosamente impensado sobre a tua ausência presente ou um carrossel de pó a anunciar a nossa chegada.


MANUAL DE COMO DESCALÇAR SABRINAS A MENINAS

Quando descalçares sabrinas terá de ser com procedimentos cinderélicos. Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. Todos os pés de vento. Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. Prever o mais breve e inútil movimento no sistema esquelético. Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. Pô-los a tocar sob ameaça de tempestade. Sentar-te na margem dos rios sinoviais e atirar-lhes pedras. Pô-los a pensar sobre os caminhos – dar-lhes caminhos. Encontrar-lhes as faces e beijá-las nas suas destrezas. Retirar com cuidado e deixar pousar o pé sobre o chão.


Ana Salomé - Anáfora

quinta-feira, 13 de Novembro de 2008



Minha alma ergueu-se para além de ti...

Tive a ânsia de mais alto

- abri as asas, parti!


Poemas – Judith Teixeira

sábado, 8 de Novembro de 2008

Nas palavras de madrugar

há um chão de terras prenhes, roubado à pedra que o tempo mastigou ajudado pelo suor dos homens;

um tempo de sacrifícios indizíveis pela luz ténue das palavras a que nos agarramos, na esperança lícita de interpretar esse tempo que apenas se percebe a espaços, escutando os diálogos entre as brumas matinais e os primeiros raios de sol, ou à tardinha, entre os salgueiros do rio e as oliveiras do monte;

esse monte acariciado pelos dedos do gigante-criador, por onde passam, à ida e à vinda, o ranger das botas e o bater das socas, dos homens e das mulheres que todos os dias sobem e descem o altar, para se darem a essa troca desigual do salgado suor pela vida, do envelhecimento pela recriação dos mistérios do xisto, como se de um sacrifício divino e consentido se tratasse – eis a oração:

às seis e meia da manhã abre-se uma janela, devagarinho, para não inquietar os ruídos de madrugar – os tentilhões e os melros não dão conta e continuam a conversa firme, pardais e tordos cumprimentam-se de galho para galho, no fio telefónico, à escuta de outros segredos, descobre-nos uma pega rabuda, que em silêncio exibe o peito amarelo da sua vaidade;

no entremeio deste olhar, já longe o quanto baste para se perceberem as cores dos lenços e as rugas do tempo, por entre as badaladas da torre sineira, o eco da reza diária traz-nos o caminhar das botas encardidas pelo pó da terra e dos socos esbotenados pela arrogância da pedra - o Alcides, o Balela, o Hernâni e o Moisés, a Rosa de Fátima, a Clotilde, a Aninhas e a Rosinda - , mais atrás, pachorrento mas de cauda em riste, vai o “Perdido” – o cão que alguém deixou, vai para um ror de anos, na borda do ribeiro que passa ao laranjal -, vai como quem faz parte da roga, muito senhor do seu nariz, mas com o faro posto nas côdeas ou nos ossos que restem do “presigo” do pessoal;

é fresco o olhar das manhãs do mês de Maio, traz aromas da terra, já penteada por novos bardos que vestem de verde as velhas cepas, que passam Outonos e Invernos à conversa com as geadas e com os muros húmidos de xisto – pedras acomodadas entre si como laçadas de um pano de renda -,esse trabalho hercúleo da paciência artística, emergente da necessidade de roubar à montanha mais duas leiras de pedra esmagada pelos braços desse tempo;

inspira-se este ar que vem do azul e se mistura com o bafo da inspiração dos montes, que nos entontece com a mesma intensidade com que em Setembro, depois do rio de prata dar lugar ao espelho de águas adormecidas, nos embebeda o mosto que sobe do rio pela calada da noite, embalado pela sinfonia das rãs e das cigarras, enquanto as botas e os socos, manchados pelo sangue da vinha, repousam na soleira do descanso, à espera que o rosário volte ao princípio;

onde os deuses se encontram

há um olhar sobre a pele dos montes, acariciado pela brisa do mosto; mãos nos bolsos e retina saltitante, pousando aqui e ali, ao ritmo dos pensamentos, como se de uma pontuação inquieta se tratasse, à procura da sinfonia que evola da caligrafia dos corpos deitados em ambas as margens, admirando a erecção dos ciprestes ou a nudez dos chorões e dos juncais desenhados na água, onde passeiam as nuvens e as sombras do senado das cepas;

entretanto, a respiração dos sexos ecoa por entre o ruído dos silêncios, escorrentes das coxas e dos seios adormecidos pelo encanto da serpente dourada que desliza entre o xisto esculpido pelo cinzel do tempo, paulatinamente humedecido pelo suor dos homens;

na rumorosa contemplação, ele, ainda de mãos nos bolsos, sente o latejar do sangue a percorrer as artérias da memória que sustenta a existência dos homens que sempre regressam ao xisto das convexas seduções, aconchegados pela manta dos frutos;
imóvel, o olhar lê as palavras que renascem do novo verde, disseminadas pelas luminosidades emergentes da emoção desse abraço:

entretanto, nas encostas de corpos, desenha-se a pauta onde se reescreve a melodia das escrituras do fragmento planetário em que os deuses se encontram, para se embriagarem com cálices de sol.


(parece-nos irresistível este parêntesis - por debaixo deste nosso alpendre há uma ramada de sombras, em cujo arame dois pardais, ainda jovens, se debicam carinhosamente e pipilam qualquer coisa do tipo:
- piu, piu-piu, piriripipiu.
- piu-piu, piriritriririri piu-
o que, traduzido à letra, deverá querer dizer:
- ó meu amor…
- diz, amor meu…)

Agora, Nós – josé braga-amaral

domingo, 2 de Novembro de 2008

«Ao romper do dia, apercebeu-se do que a rodeava, do corpo junto do seu; ele dormia, ou pretendia que ela o imaginasse. Obsidiana aconchegou-o no conforto das roupas. Quando acordou, estava só. Estendeu o braço para o lugar vazio e voltou a afundar-se num sono profundo, como se tivesse caído num abismo. Mais tarde, muito tempo depois, anos talvez, afirmaria para consigo deveria ter morrido naquela noite; não a orientaria, nesse aspecto, o negativismo, muito pelo contrário: sublimado o desejo pela ternura, poderia ter evitado a paixão para sempre.»

Obsidiana – Filomena Cabral

sábado, 18 de Outubro de 2008


é tão breve o silêncio quando dizer mais era urgente,
tão frágil o fogo das mãos sobre a pele,
tão lúcido o pensamento quando dizer tudo é pouco.


UM CORPO (SUB)EXPOSTO – Isabel Mendes Ferreira



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