do lugar dos outros

do lugar dos outros

sábado, 17 de setembro de 2011


“ E Deus é uma criação monstruosa. Eu tenho medo de Deus porque ele é total demais para o meu tamanho. E também tenho uma espécie de pudor em relação a Ele: há coisas minhas que nem ele sabe. Medo? Conheço um ela que se apavora com borboletas como se estas fossem sobrenaturais. E a parte divina das borboletas é mesmo de dar terror. E conheço um ele que se arrepia todo de horror diante de flores – acha que as flores são assombradamente delicadas como um suspiro de ninguém no escuro.”


Clarisse Lispector - Água Viva

sexta-feira, 9 de setembro de 2011



Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

herberto helder - Ofício Cantante




Gestos de despedida, diga-se, sempre foram influenciados pela
sensação de decomposição da matéria.
Quando dois homens se separam morre a sua proximidade,
o que sendo óbvio não deixa de evidenciar a existência
de um cadáver entre os dois –
não material, claro, mas pelo menos sentimental.
Despediram-se, ou seja: prepararam-se
para esquecer. Eis uma definição possível.

Gonçalo M. Tavares - Uma viagem à Índia, pág. 248



segunda-feira, 26 de julho de 2010


os humildes

O salgueiro, na fímbria do rio, guarda-os na sua gruta de palhetas vegetais. A criança nasceu apenas há minutos e Rosa mantém o pavor fundeado nos olhos claros, sem maré. A mãe agiu sozinha (talvez o pai a ajudasse, pelo menos é dele o canivete). Ela olha a erva, de verde e compustura tresmalhados, o corpo do irmão ainda íntimo como um ventre, a mãe de colo tapado pelo cobertor, as roupas empapuçadas de visco, e as manchas de sangue, a empastarem aos poucos a terra e o céu.
Esteve não muito longe, atrás de uma fraga. Quase nada via porque a mãe disse: «Se espreitas o menino morre». Ficou acocorada a escutar o movimento do rio, tão brilhante que parecia ter esgotado a luz. até que do salgueiro se desprendeu um grito, mais intrínseco do que um sismo, e ela principiou a tremer com medo de que a mãe tivesse morrido.
A mãe (Roberta)manda pôr água num panelo, à torreira do sol. ela enche-o mergulhando-o na corrente, arrastando-o sobre as areias que trinam, de joelhos à mostra, a florir nas pedras frescas. Outros salgueiros amadurecem o seu verde na soalheira que esplende, pletórica de arestas, de redondos, de vértices. Encharca o aventalinho e dobra-o, entala uma ponta no cós da saia, agarra o panelo pelas asas e expõe-no no cocuruto de uma penha, ao calor balsâmico do dia. está furado. Gotas resvalam e embebem-se, espaçadas, nos orifícios poeirentos da pedra.
- Verte – diz de cima para a mãe.
- Vai-lhe deitando água com a tigelinha.
Rodopia entre a margem e a fraga, examina a água no panelo, mantém-na quase até aos bordos. Um vagido desperta na boca do recém-nascido, novo e por polir como uma pedra do campo. Alva e fina, porque o rio côa-se muito límpido, é uma maravilhosa toalha fluida para purificar-lhe o corpo gelatinoso. Ela própria o lava, junto da mãe que observa os seus movimentos tacanhos.
Roupas coloridas (cabriolam com elas nas feiras e nos largos) suspendem-se mais além, no tronco de outro salgueiro. O menino está agora deitado e o seu choro acutilante prolonga-se pela fila de árvores pendentes.
- O teu pai não traz o leite – murmura a mãe – Também estava sequinha quando nasceste.
Rosa vai lavar as roupas do parto. Acha naturais as porcarias coaguladas, a baba cruenta que se deslassa no rio, traçado de sol. O lençol ensopado adquire um peso de alter para os seus braços tenros. Uma vibração esfiampa-lhe os cabelos e traz-lhe a voz aguda da mãe: «Não te demores, Rosa».
Acende o lume: duas achas cruzadas no centro das quais ateia o fogo. Descasca e pica uma cebola. Vê-a a crepitar na panela, vítrea, lapidada, ensoada de azeite.
- Bendito salgueiro – diz a mãe. (Não é a planície uma casa magnífica, apenas de santos e de guerreiros, de viajantes e de saltimbancos?).
O pai não traz o leite. Tem esperança nos seios da mulher e esclarece que em roda só há avarentos que se guardam em casa, mal suspeitam de um olhar de pobre.
- Mas eu quero leite – teima a mãe – Rosa, leva um púcaro para o leite.
Rosa transpõe a cintura do rio, por cima das pedras que se enterram no fundo e se amaciam nas volutas de água. Toma a estrada alcatroada cujo preto esmorece em tremulinas radiantes. Tem a asa do púcaro enfiada num dedo, à maneira de um largo anel. Um mosquito ziguezagueia , desenrola sobre o seu ombro um som esquentado que se coaduna com o calor das folhas povoadas de besouros, libélulas, gafanhotos e louva-a-Deus. Perde-se no tempo e no espaço afiado da estrada, à espera de que surja uma vivenda, uma taberna, um casebre. Vê uma quinta avolumada por um muro, cintada em uma cota aguerrida de silvas. Puxa o manípulo da campainha que chocalha uma revoada de guizos, desbragada e alegre. As flâmulas de uma palmeira divergem, brandas, no cimo do tronco verrugoso.
- Que queres? – pergunta uma mulher. A fita do avental dá-lhe duas voltas à cintura e achata-se-lhe, num laço murcho e unilateral, sobre o início do ventre.
- Um pucarinho de leite.
- Para quê? Para algum gato?
- Não. Para o meu irmão.
- Como te chamas? Tu é que o bebes…
- Não bebo, não.
- Entra. Tens sorte. Ainda ficou um resto.
Há um terreiro. A palmeira fere-lhe o meio com o seu corpo torneado e tigrino. Rosa sobe as escadas e entra na casa, atrás da mulher. Defronta uma cozinha imprevista, desprovida de achas ensarilhadas (mas com um fogão), de pedras a servirem de assentos (mas com bancos), de coxas a apoiarem os pratos (mas com uma mesa). Um gato sai a miar debaixo da chaminé. Tem olhos maritimamente verdes, com barcos delgados ao centro.
- Trouxeste uma vasilha? – (a mulher não reparou no pucarinho).
- Trouxe – diz ela.
A mulher vem para o varandim. Deita-lhe, de um copo, o leite no púcaro, lunar e nevado. Rosa pousa-o no parapeito. Contempla-lhe a doçura macia e gordurosa.
- Só tenho um copo.
O gato salta. O púcaro desequilibra-se. A mulher exclama: «Oh!». E Rosa tem a impressão de que o leite a alastrar desperdiçado, no chão, é um cemitério.

(…)

Cantileno – Maria Gabriela Llansol

quinta-feira, 17 de junho de 2010

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e foi a luz que te fez sublime dentro da sombra. com a prudência de
um segredo de estátuas.
o pouco efémero é agora regra e mensagem. como se recolhido do
chão fosses mais caminho que caminheiro. e ao lado do visível
dos teus passos mora um ninho de encostas. que te afloro.
pacificamente. e onde me escondo. para sempre.

Isabel Mendes Ferreira – As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar
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sábado, 12 de junho de 2010


(…)

«Gabriel disse-me uma vez que, ao conhecê-la, viu diante de si o seu destino», conta Ford Madox Brown no seu diário. No puro plano da realidade, ele vira apenas uma rapariga que a pobreza e a cor ticiano do cabelo logo à nascença haviam condenado.

(…)
Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações.
Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para o bobo. Os Pré-Rafaelitas provocavam situações de entreajuda em que existia, a par da exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima.
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. «Hei-de pintar esta mulher», pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.

(…)
A verdade é que, sem o contributo da senhora Millais, «Ophelia» nunca seria o quadro que nós hoje conhecemos. O vestido bordado de pedraria, que John descobriu num bricabraque e pelo qual, apesar de velho e sujo, pagou uma quantia razoável, foi pessoalmente restaurado pela mãe. Também se deve a Emily a invenção da banheira em que Lizzie mergulhou. O filho queria ter à vista o efeito da água nos cabelos da jovem morta, da impregnação lenta no tecido, da refracção dos braços, já cobertos. Imóvel, a modelo permanecia naquela submersão quase total, no Dezembro londrino, que normalmente não inspiraria um qualquer pensamento de cuidado, a provação parecia desumana. Para que a água se mantivesse quente, Emily colocou lamparinas acesas, sob a folha de zinco, pelo chão.

(…)
Lizzie, que ansiava por fazer o seu trabalho sem qualquer falha, não dispunha de conselhos. Perguntava a si própria qual seria o grau de submissão conveniente. Não tinha junto dela, em Gower Street, a mãe e a irmã de Deverell, tão carinhosas, nem se encontrava a sós com o pintor, como em Chelsea, no estúdio de Holman Hunt, quando o risco de abuso sexual, ou a sua suspeita, a induziam a um estado de completa rigidez. Ali, o instinto estava a ordenar-lhe que guardasse obediência absoluta. Uma coisa sabia: nunca mais ia voltar à loja de chapéus. Havia, de algum modo, uma lavagem sobre a vida anterior. Ofélia entrava-lhe na pele como se a água tivesse alguma qualidade osmótica e arrastasse consigo, num despejo, o episódio da costureirinha. E quando, um dia, as lamparinas se apagaram, ela, temendo perturbar Millais, continuou imersa na banheira, sem se queixar. Terminada a sessão, não conseguiu sequer erguer-se. Estava enregelada. Apesar das massagens com álcool e do porto que Emily lhe serviu, adoeceu.

(…)

Hélia Correia - Adoecer

sábado, 10 de abril de 2010


sabes, mãe. uma asa não deixa de bater
porque cai do corpo de um pássaro.
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o nome que nos dão, ao nascer,
fica nos retratos, nos envelopes intactos,
nos poemas que hás-de escrever.
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às vezes, é o medo que escreve,
outras é o vento, quase sempre
é o vento que escreve, mãe,
quase sempre é o medo.
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um cão em cada dedo - alice macedo campos

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Jasão

E que diriam às falésias os barcos arrastados
sem que nenhuma onda viesse, ou vento soprasse,
nem maré crescesse para os libertar?
Diriam: como se corta o mar,
como se fende o destino?
Ao porto a que chegamos, chegamos sem saber.
E agora, que queremos regressar, como se diz o regresso,
quantas sílabas nos cabe inventar?
Diriam.

As falésias são apenas terra nua que fende a noite.
Pode ser que saibam, pode ser que não.

Ardem as trevas e outros lugares - Helena Carvalhão Buescu

domingo, 21 de março de 2010


esquecendo um dia os braços, procurei dar-te um nome, inventei nome falso mas real de ficção, cheguei mesmo à loucura (desabrida) do esquema para a história. estava tudo no esquema, o central é que não. e rasguei esquema e nome, que tu não respondias ao nome que inventara para ti. e como um sino falso de metal quebrado eram os nomes que sucessivamente te fui dando.

Ana Luísa Amaral – Se fosse um intervalo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010



(…)
Com que pedra de sal
com que promessa
com que pássaro solto pela casa
com que folha de louro
com que sonho
com que lua entornada no alpendre
com que livro de quem
com que sonata

temperarei a dor da tua ausência
o silêncio
o vazio na minha cama
os gritos do meu corpo
o pão por repartir da minha alma

Com que chuva
lavarei o rumor dos teus passos
no magoado coração dos dias

Com que pranto
afogarei teu rasto
com que manto de lava
com que mar.

(…)

Rosa Lobato de Faria – A Gaveta de Baixo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


A direcção do olhar

Era uma vez um homem de olhar fugidio. Frequentemente revirava os olhos para cima, procurando seus pensamentos no alto. No alto do cérebro, no alto do céu ou no alto da inspiração seria impossível dizer-se, porque ele não tinha convicções seguras e definitivas: não era religioso mas admitia que talvez, sim, houvesse um ser, por aí, causante de tudo, porque não, porquê atribuirmos as leis do mundo ao mero acaso ou a uma cega organização da matéria? Porquê darmos a primazia ao nada ou à matéria inanimada, dizia, e achava que essa tendência humana para preterir o ser para o lugar do mero efeito ou consequência do não ser era um sintoma do masoquismo que acabava por se generalizar à maior parte dos actos humanos.
Com estes argumentos – aliás certeiramente opostos, ele podia ser um homem brilhante – não afirmava as paisagens divinas como origem de todo o fenómeno humano e, simultaneamente, também não conferia grande confiança à nossa espécie, julgando-a capaz dos absurdos mais notáveis, como esse de utilizar o próprio discurso do ser – do ser que fala e se pretende conhecedor de si, ordenador do resto – para o reduzir a comemoração de fenómenos menores do que o elocucionante ser.
Restava-lhe talvez esse refúgio sagrado e constantemente evocado ao longo dos tempos por filósofos, artistas, intelectuais: um secreto contacto entre os seres humanos e alguns fogos, ou energias, ou seres invisíveis, por aí espalhados, no éter, na sombra dos cantos das nossas casas; enfim, aquilo a que se chama inspiração e que é sempre uma estranha amálgama de restos de fé, ou de fé mal resolvida num ser pensante absolutamente maior que nós, e de rasgos humanistas profundamente comovidos perante o milagre anónimo que somos.
Quer dizer, parecia ser mesmo aí que ele buscava seus pensamentos quando revirava os olhos: no alto da inspiração, nessa amálgama entre o aqui e o acolá, talvez os astros ou na poeira cósmica ou no inconsciente colectivo, talvez na secreta alquimia de cada um de nós com todo o universo. Parecia: mas como ter a certeza? Como pode qualquer certeza estabelecer-se sobre a dúvida? Se interrogássemos este homem, que podia ser brilhante, sobre a natureza da inspiração, ele reviraria os olhos e buscaria no alto indefinido o conteúdo das suas definições.
Era por causa desse olhar revirado para o alto que a maioria das pessoas – as que têm tendências pragmáticas e por isso predominam no planeta – o escutava e o olhava sem grandes inquirições e concluía, apenas, que ele era um homem fugidio.

Havia um homem que olhava sempre os outros nos olhos, directo e cândido, e que com essa arma decidira dedicar-se ao negócio.
O homem de olhar fugidio queria vender o carro, já bastante gasto, para comprar um novo, e este homem pragmático, um construtor em vias de ascensão, pensava comprar o carro do homem de olhar fugidio: seria a primeira viatura da sua empresa recém-formada. Idealizava já pintado na porta o logótipo que ele e a sua mulher tinham inventado num serão. Claro que não lhe chamavam logótipo, porque não conheciam a palavra, chamavam-lhe “umas letras jeitosas”, e achavam que as suas “letras jeitosas” competiam com quaisquer umas, das que apareciam por aí, na televisão e nos cartazes da publicidade. Este construtor e a mulher eram daquelas pessoas que não reviram os olhos para lado nenhum, têm sempre a certeza de tudo porque, na sua pragmática visão, o que existe está à vista e o que não se vê não existe.. calhava bem um carro assim, pensavam, já um pouco estafado mas bem conservado, para carro de serviço.
Mas o homem pragmático acabou por desistir da compra. O homem não olha nos olhos, confidenciara à mulher, tem aquela mania esquisita de revirar os olhos para cima como se quisesse fugir para qualquer lado, não confio em gente assim; acho que ele esconde alguma coisa. Talvez o carro tivesse tido algum desastre sério e tenha o eixo torcido, ou o próprio chassis todo empenado, quem sabe?
E o homem que revirava os olhos acabou por vender o carro muito mal, a um negociante de automóveis que imediatamente o vendeu pelo dobro do preço. Confirmou assim, este homem em busca de inspiração mas pouco inspirado nos detalhes práticos, uma das firmes opiniões que tinha sobre si próprio e sobre o mundo: que não tinha sorte nem jeito para os negócios, e que o mundo pertencia aos que sabem enganar os outros.
Não soube nunca que o construtor em vias de ascensão acabara por comprar, a um homem de olhar directo e sorriso franco, um carro em mau estado e mais caro do que o seu.


Maria Isabel Barreno – Os sensos Incomuns

domingo, 3 de janeiro de 2010

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E chega um dia em que reconhecemos
finalmente
a injustiça das palavras –
exactamente as mesmas para quem vai e para quem fica

um dia
em que não há mais passado para contar
nem mais futuro para viver

apenas uma velha cantiga a embalar
uma casa desaparecida
e este limbo ocasional
onde o corpo
espera que anoiteça


Alice Vieira – O que dói às aves

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sábado, 19 de dezembro de 2009


NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido…

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão Ferreira – Obra Poética

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009


L`ALLIANCE

Définitivement ils sont deux petits arbres
Seuls dans um champ léger
Ils ne se sépareront plus jamais.


A ALIANÇA

Eles são para sempre duas pequenas àrvores
Isoladas numa planície leve
Nunca mais se separarão.

Paul Éluard – Últimos Poemas de Amor

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009











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Não é poema

não se escolhe: sente-se

um diamante vivo respira no centro do meu peito
sentes?
as suas faces espelhos onde me vejo
órgão rosto jóia
interrompem o ruído de uma maça trincada
que caiu súbita ao chão –

lembra-me que já fui carvão
cruz pregos martelo

sentes o hálito dos anjos?
aproxima-te
meçamos a voltagem dos metros sacros
entre golfadas

desejo-te como só as pedras:
rubra é a fenda
onde urge o magma
lava emerge à tona das nossas bocas
as carótidas dançam nas nossas bocas

não escolhi: sinto

reordenas todos os meus nomes
polindo todas as faces do diamante
com uma rosa dentro
enches-me o altar de frutos ternos
incandescentes rebentos brotam
constelações puras descem
… com harpa tão perto

de ouro se tecem as moléculas que respiramos
para polirmos mais diamantes

e assim o mundo adormece
em crepúsculos dourados

não penses


Suzana Guimarães

cràse - revista de literatura emergente – nº 0

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

(…) de repente, o caixão estremece, uma sombra levanta-se e caminha, sonâmbula, sai do quarto pela porta desenhada na parede.
o silêncio é definitivo.
eis o sofrimento da boca queimada pelo sarro oceânico.
a dor invadia-te. um cristal flutua no enxofre de remotas cidades.
sentias a tua mão abrir a porta desenhada.
sempre viveste em resíduos de cidades, ruínas da pele, finos cordéis de terra fértil, mistérios…

sentias uma feroz necessidade de ter medo, e pela casa atravessada de ecos, de lumes, respiravas. respiravas o ar insalubre do próximo porto.

permanecemos aqui, neste quarto, onde a escuridão é eterna claridade. fora deste lugar nunca viste o mar.
mas tudo isto se passou noutro tempo, noutro lugar. e a tua boca deixava na minha um travo de asas salgadas…
breves nuvens. o entardecer sobre o corpo estendido na erva fresca do sonho. abrias nas pedras fulvas da praia um sítio para esconder a paixão.
cansei-me de te sonhar. cansei-me do sangue e da chuva, da memória dessas rotas difíceis.
donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu.
encosto a alma à quilha do navio. deixo-me ir no vaivém das marés, e da fala.
a noite singra a pele.
e tu escondias a cara num pano branco e quando fitavas as mãos eu sentia medo de um deus.
estávamos sentados à sombra dos tamarindos. ouvíamos uma voz e não sonhávamos.
nenhum de nós sabia se o sonho, ou a morte, nos conduziria a algum porto de felicidade.

não me lembro o que aconteceu a seguir.
a noite deixava-se habitar por um silêncio escorregadio.
veio-me então ao pensamento o grande porto do sul onde aportaras e dizias ter sido feliz.
as horas começaram a cair umas sobre as outras, iguais, sem frémito, melancólicas.
quando te digo que vou de novo partir, perguntas-me: morre-se porquê?

caminhamos em direcções opostas. caminhamos sem destino pela cidade.
a febre aniquila-nos.
existem Índias por descobrir, no segredo da noite dos nossos desastres.
caminhamos neste espaço de penumbras e de incertezas – onde a fala já não cintila e as palavras são de cinza.

sobre as tuas mãos a sombra de um corpo, ou de um navio. o silêncio das viagens cumpridas. e no meio deste silêncio uma ideia de voz, uma treva agarrada à memória.

foi então que dei por mim a existir para lá da tua morte, como se asfixiasse. mas o passado não é senão um sonho. uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.
não vale a pena estar triste.
todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar.

um barco tremeluz nas cortinas do quarto.
o horizonte é negro. a luz do dia extingue-se subitamente.
as mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais – porque o tempo todo talvez esteja onde existimos, embora saibamos que nesse lugar nunca houve tempo nenhum.

O Último Coração do Sonho – Al Berto

sábado, 28 de novembro de 2009


Bastava-nos amar. E não bastava

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

125 Poemas – Antologia Poética – Joaquim Pessoa

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terça-feira, 24 de novembro de 2009



"Era uma vez... Um mundo" - Prémio Revelação em Literatura Infantil e Juvenil Matilde Rosa Araújo

A história de abertura do livro "Era uma vez... um Mundo", a “Cidade dos Fantasmas Felizes” está destinada às crianças dos 3 aos 5 anos e é um desafio aos sentidos. Apresenta-se a preto e branco e está permanentemente envolvida num jogo de sons, sensações e várias perspectivas e volumes. Da história não digo nada, pois se as crianças de três anos tiverem medo do escuro, rapidamente se apaixonarão por Escurinho e, de algum modo, aplaudirão a sua inteligência. Só quem não conhece o Escurinho é que pode ter medo de fantasmas.O segundo conto deste livro, “Uma cidade diferente”, destina-se aos primeiros leitores (5 aos 6/7 anos). Trata-se de um diálogo entre duas personagens principais, Flora uma fada linda e feliz, e Aurora uma fada linda e antipática. A ilustração desta história conduz o leitor a sentir as emoções das duas frágeis fadinhas. Será que elas conseguirão ajudar aqueles que as envolvem? Aqui a questão do que é realmente importante é colocado através de um desafio que surge em cada fala. Ora pergunto eu, ora respondes tu. Segue-se um conto fabuloso e hilariante, “ Uma cidade de vegetais”. Temos dois protagonistas, os irmãos brócolos Pepe e Pop num conto destinado aos leitores de 7 até aos 8/9 anos. É um conto que aborda a temática da Multiculturalidade e não só. Há uma clara abordagem à sociedade consumidora do fast-food, onde os legumes são postos ao lado do prato. Desta forma, somos levados a conhecer a vantagem dos legumes, embora seja feito de forma indirecta. Também se descobre a importância da diferença e o que pode levar a essa diferença, e ainda se faz uma breve abordagem à problemática ambiental. Com este conto irão viver uma aventura com um desfecho inesperado, pois só quem não conhece Pepe e Pop é que pode não gostar de vegetais. Por fim, o amadurecimento temático surge em forma de conclusão com “Safi e os ladrões de cavalos”. Temos ou não direito à diferença? Seja de ordem cultural, religiosa, política, geográfica, musical, estética e tantas outras formas que enriquecem o diálogo, a partilha. Estes jovens, talvez por estarem mais próximos dos mais pequenos, enriqueceram substancialmente um tema tão vasto e de uma forma tão simples e inocente, onde alguns adultos se perdem e não encontram a verdadeira essência da partilha e do quanto é enriquecedor sermos todos diferentes.

Paula Viotti

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Obrigada Paula.




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domingo, 15 de novembro de 2009


“Porque a distracção é a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condição.

Há uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento; quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte.

A memória fácil do homem é apenas a sua recordação. Ela começa para cada um de nós naquilo que desde a infância lhe referenciou a vida. Mas a outra, a memória pura e que é apenas a vertigem das eras, eco de uma voz que transcende os limites do tempo, recuperando-se talvez aí, nesses pontos de referência, instala-nos todavia, porque o momento é de milagre, num passado e num futuro sem limites, reinventa-nos um acorde único, essa música milenária de estrelas e de nada, abre-nos à aparição da vida onde somos um breve ponto perdido, e a memória é assim uma pura vibração para os quatro cantos do mundo, uma pura expectativa de uma interrogação submersa. É então possível vencer a muralha concreta que nos cerca, a realidade imediata, os factos conhecidos ou relembrados, e acordar à distância ilimitada o eco dessa voz que nos transcende.

O sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o ar que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade – no que afirmamos ou negamos.

Só há um problema para o homem, só há uma forma de humanismo: a evidência de uma alegria final nos limites da nossa condição. Até lá, admito que tudo seja provisório e ingénuo.”

Vergílio Ferreira – Carta ao Futuro

sexta-feira, 6 de novembro de 2009



“Diz-me se te dói”


A percepção do que é necessário é um sinal de concessão às razões ordinárias que orientam a vida, que hoje não é mais que uma frenética escalada estética, tendendo à disseminação total de um sentimento de vulgaridade.
A assimilação exacerbada é de tal forma promovida que só conduz a um estado geral de apatia ignorante em detrimento da dúvida na sua natureza de incondicional. Trata-se do aproveitamento de uma sensibilidade extra levado ao extremo, aniquilando toda a hipótese de poder concretizar, por bloqueio face ao desvio do institucionalmente instituído.
A Dor pode ser aceitação, mas também é negação provocada, e ignorante, insensível por excesso.

“Diz-me se te dói” o corpo de escorregares na ladeira do tempo, se o lombo arde da procura constante, se te se rasga o nervo da pergunta. Tudo o que te poderei fazer é expor-te mais um ponto curvo na distância abrupta.
Colher palavras na estação quente não é um desporto, carregar a interrogação como ferramenta do sangue não cria músculos de mostrar. Se dói – e dói sempre mais – no escuro da incógnita, observa e aprende. Transporta e ergue-te na Vida que vai fugindo e pela qual perguntas.
A Dor não se suporta, fere-se no átrio do poema para que caia morta. Dela escorrerá a tua máscara e o calor do Outro, ultrapassada a pena e a comoção, armando-se a voz com a compaixão da força. Nasce todos de uma só vez e inspira. Não fujas à Dor, combate-a. Como se combatesses uma ferida na escrita que te faz doer. Porque nenhuma palavra é possível se a dor não abrir o teu pensamento ao que está a ser escrito. Sabes que o tempo se consome à temperatura da tua própria memória. Um tempo tecnológico que controla a acção criativa e a condiciona segundo as regras dos limites. Uma história indesejável, um poema distorcido por excesso de aquecimento mental, como se te queimasses na barra incandescente do tempo que demoras a pensar.
Escrever é uma cabeça enfiada num buraco. O que tu sentes é a pressão tóxica que te transporta de palavra em palavra num sufoco infernal que significa toda a escrita. Tento entrar nesse forno da tua imaginação. Esse espaço contemplativo que não suporta outra presença que não seja o teu próprio volume de inspiração. Em todo o caso a dor é uma inutilidade quando a estrutura do escrito não evoca nenhuma forma de segurança criativa.
Por outro lado, a escrita é um falhanço em todos os sentidos quando a dor não passa de uma dissimulação que procura no acto de escrever uma forma de utilidade. No entanto, escrever é ocultar metade do que se escreve. Ou ainda: que metade do teu corpo é a escrita que o teu corpo não escreve?

Sulscrito
Julho de 2008
Revista de literatrura

terça-feira, 27 de outubro de 2009



(…)
Todo o longo verão eu repassava em mente aquele dia em que minha mãe, de dedos ágeis, ficara concertando duma velha garnacha de meu mestre uma sotaina de ordinando. Porque já estava decidido que iria cursar teologia na velha cidade do Bispo Azul. A despeito de minha surda repugnância, tive de render-me; rendi-me à força das coisas e, não menos, às boas razões de meu mestre.
- Libório – dissera-me ele – a vida é curta e a pobreza longa e negra. A grande questão é menos viver a nosso gosto, que viver sem custo. Quem está contente da sua dita? Não creias que as coisas revistam na prática a rigidez que se lhes inculca em teoria. O homem é pecador; porque não havia de ser natural e, portanto, escusável pecar o sacerdote? Não, não receies pecar racionalmente, sempre que a máquina de viver para aí torça. Entra para a carreira eclesiástica com ânimo de ser cumpridor, mas de modo algum a ser um jansenista. As leis têm a máxima tensão para que delas ressume algum domínio. Assim na Igreja; muito rigor, muita ameaça, mas tudo aparente, tudo invencioneiro! Deus é melhor do que o pintam os teólogos; fez a vida, sabe que se não pode vergar o curso à vida. Se outra relutância não tens que a de ver a tua existência mutilada dos raros gozos com que é lícito contar um leigo, não te detenhas. Nosso Senhor fez-nos o coração de molde a sentir o que é bom e a amar o que é belo. O que é preciso é não ser escandaloso, porque não é a paixão que deslustra o homem, mas o escândalo. Pode-se muito bem ser cauto sem pedir a Satanás a capa da hipocrisia. Muitos dos padres do meu tempo são honrados pais de família, e ninguém lhes pede contas de tal humanidade.
Estávamos no presbitério, à sombra das Carvalhas, e meu mestre, inadvertidamente, pôs-se a riscar com uma varinha o chão moído. Na fronte eu lia-lhe a serena filosofia do homem que divisa a tumba a seus pés.
- E olha – tornou ele – eu sinto, tu não sentes? o vento de tempestade que sopra esta terra de dez séculos. Longe vá o agouro, mas ia jurar que tristes dias vão amanhecer para ela, tão estimada que foi, noutros tempos, do Senhor. E verás, as cidades hão-de converter-se em charcos de desordem e de chacina. Por isso, mais vale o remanso da aldeola, onde os homens e as ideias sempre são menos feras que as feras! Deus mandou-nos viver, vivamos! Ou, noutros termos, fujamos da dor e da morte!
Com este e outros discursos e com o argumento esmagador de nossos poucos teres, preparou meu ânimo a requerer admissão ao Seminário. Minha moral havia-se amolecido e eu pensava que, ungido de ordens maiores, não sendo honesto cobiçar uma D. Estefânia, seria razoável amar uma Celidónia.
(…)


Aquilino Ribeiro – A Via Sinuosa

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


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sábado, 3 de outubro de 2009


Nila sentia o cheiro do fim do dia, um frio cru apertava-a, entrou em casa de Onina, regou os cactos, ficou em frente do espelho até chorar. Achou-se linda e decidiu.
Andou na cidade numa espécie da despedida falsa, a despedida de quem sabe que amanhã está exactamente no mesmo lugar e passeia sempre com o gesto guardado do último adeus.
Um nevoeiro ténue embrulhava os espaços, os jardins húmidos cheiravam a verde novo, as luzes amarelas e doces transpareciam das janelas, sentiam-se os passos dos inquilinos engaiolados. Na esquina, um buraco fundo e largo rodeado de tapumes furava a rua até à raiz do prédio. Nila pensou o que todos tinham pensado, mas achou que era para plantar uma palmeira gigante.
O guarda das obras tinha a cabeça entre as mãos, como os velhos nas janelas, estava sentado à fogueia, o fumo misturava-se com o nevoeiro e o cheiro quente da lenha agradou a Nila.
- Olá linda!
Nila parou a dirigir-se ao homem, ele baixou a cabeça e assobiou qualquer coisa.
- Chamou? – perguntou-lhe a mulher.
- Não, não, deseja alguma coisa?
Nila sentou-se no tijolo ao lado dele, o homem levantou-se rapidamente, e embaraçado disse:
- Sou o guarda da obra, está frio, se quiser sente-se e aqueça-se.
- Estou sentada, obrigada.
- Ah, pois! – e o guarda sentou-se também.
Os últimos autocarros passavam em grande velocidade, quase vazios, a lenha estalava, os olhos velhos e pequeninos do homem iluminavam-se com as chamas e o calor da companhia. Nila sorriu triste, tentou ver para lá do nevoeiro, falou porque lhe apeteceu ouvir-se.
- Saímos do palco da noite e entramos no carrocel do dia-a-dia, andamos às voltas, tudo gira connosco. De manhã lá está a girafa que escolhemos, parada na nossa frente. Tudo combinado. É só entrar e mais uma voltinha. Preferimos o palco. Quem é o mais? Eu, gritou o bêbedo. Eu, grito eu. E amanhã, pelo menos dizem: é extraordinária. Eu sei do meu medo e eles não sabem que me sentei exactamente em cima da girafa que escolhi na véspera. E o carrocel parte. Tudo é igual ao igual do palco que trazemos pendurado ao peito, disfarçado de cruz ou figa. Ou corno.
- Desculpe não percebi, a senhora é artista?
- Posso deitar-me consigo ali dentro?
O homem olhou para Nila, torceu as mãos, espiou as máquinas e fingiu.
- Hã!?
- Posso deitar-me ali consigo?
O homem voltou a espiar as máquinas, os tapumes e disse:
- Eu sou o guarda.
- Vamos!
Deu-lhe a mão e, quando entraram, ele apenas repetiu que era o guarda.
Nila despiu-o como se fosse uma criança, beijou-lhe o corpo. Os braços até ao cotovelo, o rosto e o pescoço eram morenos, tinham uma cor quente, o resto do corpo era violentamente branco, quieto, quase puro. Daí a pouco a barraca de madeira do guarda estremeceu como se as máquinas entrassem em movimento, mas o prédio não lhes sentiu o barulho dos motores. Um perfume fino envolveu as picaretas, as pás, as botas e a perfuradora encostada ao fundo, entre o divã e a parede. A noite passou depressa. Quando os primeiros operários chegaram, o guarda estava ainda na cama e perguntou-lhes a que cheirava. Um deles pegou na perfuradora e no limiar da porta respondeu-lhe com cansaço:
- A ratos mortos.

Margarida Carpinteiro – Ninguém Morre de Véspera

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Quinto Poema do Pescador

Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber de Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre – Senhora das Tempestades

quinta-feira, 13 de agosto de 2009



Talvez seja uma possibilidade.
O poema é um talvez.
Quem recolhe a rutilância
da cor quando o pensamento é vivo
num momento de aspirada glória?
Só um ser que se recolhe surpreende as águas
e concentra em si o negro e o ouro de uma corola inicial.

antónio ramos rosa – horizonte a ocidente

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domingo, 2 de agosto de 2009


(…)

Um ano, no natal, Sempere deu-me o melhor presente que recebi em toda a minha vida. Era um volume velho, lido e vivido a fundo.
- «Grandes esperanças, de Charles Dickens…» - li na capa.
Tinha ouvido dizer que Sempere conhecia alguns escritores que frequentavam o seu estabelecimento e, pela ternura com que manuseava aquele volume, pensei que talvez aquele senhor Charles fosse um deles.
- Um amigo seu?
- De toda a vida. E a partir de hoje, teu também.
Naquela tarde, escondido debaixo da roupa para que o meu pai não visse, levei o meu novo amigo para casa. Aquele foi um Outono de chuvas e dias de chumbo durante o qual li Grandes Esperanças umas nove vezes seguidas, em parte porque não tinha outro à mão para ler e em parte porque não acreditava que pudesse existir outro melhor e começava a suspeitar que o senhor Charles o escrevera só para mim. Não tardei muito a ter a firme convicção de que não queria fazer outra coisa na vida que não fosse aprender a fazer o que fazia aquele tal senhor Dickens.
Uma madrugada acordei de rompante, abanado pelo meu pai, que voltava do trabalho antes do tempo. Trazia os olhos injectados de sangue e o seu hálito cheirava a aguardente. Olhei para ele apavorado, e ele apalpou com os dedos a lâmpada nua que pendia de um fio.
- Está quente.
Cravou os olhos em mim e atirou a lâmpada contra a parede, enraivecido. O vidro desfez-se em mil pedaços que me caíram na cara, mas nem me atrevi a arredá-los.
- Onde está? – Perguntou o meu pai com voz fria e serena.
Abanei a cabeça, a tremer.
- Onde está esse livro de merda?
Voltei a abanar a cabeça. Na penumbra, mal vi chegar a pancada. Senti que perdia a visão e que caía da cama abaixo, com sangue na boca e uma dor intensa, como que um fogo branco a arder-me por detrás dos lábios. Ao virar a cabeça vi no chão aquilo que calculei serem dois dentes partidos. A mão do meu pai agarrou-me pelo colarinho e levantou-me.
- Onde está?
- Pai, por favor…
Atirou-me de cara contra a parede com toda a força e o golpe fez-me perder o equilíbrio e abater-me como uma carga de ossos. Arrastei-me até um canto e aí fiquei, encolhido como um novelo, a ver o meu pai abrir o armário e deitar ao chão as quatro peças de vestuário que tinha. Revistou gavetas e baús sem encontrar o livro, até que, esgotado, voltou de novo para junto de mim. Fechei os olhos e encolhi-me contra a parede, à espera de outra pancada que nunca chegou. Abri os olhos e vi que o meu pai estava sentado na cama a chorar de asfixia e de vergonha. Ao ver que eu olhava para ele, saiu a correr pelas escadas abaixo. Ouvi o eco dos seus passos que se afastavam no silêncio da madrugada, e só quando soube que estava longe é que me arrastei até à cama e tirei o livro do seu esconderijo debaixo do colchão. Vesti-me e, com o romance debaixo do braço, saí para a rua.
Descia um pano de bruma sobre a Calle Santa Ana quando cheguei à porta da livraria. O livreiro e o filho viviam no primeiro andar daquele edifício. Sabia que às seis horas da manhã não eram horas de tocar à campainha da casa de ninguém, mas o meu único pensamento naquele instante era salvar o livro e tinha a certeza de que, se o meu pai o encontrasse ao voltar a casa, o destruiria com toda a raiva que tinha no sangue. Toquei à campainha e esperei. Tive de insistir duas ou três vezes até que ouvi a porta da varanda abrir-se e vi o velho Sempere, de roupão e pantufas, assomar, atónito. Meio minuto mais tarde desceu e veio abrir-me a porta e, quando viu a minha cara, toda a expressão de aborrecimento se evaporou. Ajoelhou-se à minha frente e agarrou-me pelos braços.
- Santo Deus! Estás bem? Quem te fez isso?
- Ninguém. Caí.
Estendi-lhe o livro.
- Vim devolver-lho, porque não quero que lhe aconteça nada…

(…)

Carlos Ruiz Zafón – O Jogo do Anjo

sexta-feira, 17 de julho de 2009



EMBRIAGA-TE

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: «São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.»


Charles Baudelaire – O Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)


segunda-feira, 13 de julho de 2009



PEDRAS

Da mesma raça, satânica, poderosa
família, os nossos
olhos; diria seres com a beleza e a crueldade das pedras
e das cobras; a impotência e a sorte
de se voltarem
para a arte com uma lucidez
desesperada.
Seres inquietos e divididos; conturbados, e por isso mesmo capazes
de sobreviver à mais venenosa
orfandade; uma vez o nosso parentesco foi sempre
mais que anunciado.
Que ele te não afaste da «inefável falta que sobe dos filhos
aos pais», pois, e em verdade, em verdade, somos
cobras: idênticos,
iguais.
Em silêncio, no bater do coração, ouso implorar-te:
Escuta, uma cobra é uma cobra uma cobra
uma cobra
e deve ser esmagada antes que o veneno
nos incuta.
«Não me mordas», pedes.
Vem, de onde, esse temor? Do não quereres tomar conta
do menino que fugiu da «tormenta
nocturna que se fazia negrume diante dos seus
olhos?»
Sossega. Não tos fecharei. Não te morrerei.
Não te morderei.
Se for capaz.
De amar-te. Como o fazes e na rebeldia
dos mais sinceros e transparentes
sinais.

Cobras. Somos cobras.
Somos olhos: Poetas. Nada
mais.

Eduarda Chiote – O Meu Lugar à Mesa

(prémio Teixeira de Pascoaes 2006)

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sexta-feira, 3 de julho de 2009

desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
assopra ao sabor da substância das águas que não sendo lágrimas são a
cal suspensa dos lábios. que sendo casa são delírios que o vento arrasa.

que não sendo corpo é a tua asa sobre um relâmpago que é a nossa chegada.

íngreme o destino do instinto das tuas pupilas. onde me desenhas um
sinal. que sendo recente é antigo. próximo da música longe das estátuas.

que te abrasam como palavras cegas…tão dolorosamente cegas.

e se é ao sul que os animais se estendem ao sol estendo-te a memória.

faz-me um nome. um só que seja. só uma sílaba. tu sabes que a morte é
um grito. sufocado e laço. nó que te desato. para que me sejas o
assombroso movimento de um bicho de seda. distância lenta na tua
pele. sempre adiante.

sempre pálpebra delicada…macio dedilhar onde te cuido a favor do
tempo…taça de espuma selvagem onde te declaro mais puro.
e se disser que te amo? como ilha convulsiva?
e se disser que me és MAIOR na orla das marés e que me invades como um
osso fino…que dirás amanhã…quando o dia te fizer carta ou pássaro?


Os dias do amor – Isabel Mendes Ferreira

quarta-feira, 17 de junho de 2009


AS CANDEIAS

O perigo dos espelhos é exporem-se os ossos.
A luz reflui através das omoplatas, distribui-se
pelos flancos, concentra-se nos pés.
De alto a baixo somos vivas candeias acesas.
Entramos na obscuridade com o fascínio
de um dom próprio.
Não possuímos um deus, mas duas mãos lisas
e uma boca de vidro – e uma voz
que vai morrer.

Fazer estalar a amnésia, pouco a pouco,
ou de um só golpe. Ninguém acorda
senão numa sala de pânico.
Levas o dedo à ferida: uma fechadura.
E, rodando o dedo, há por baixo
uma tulipa aberta,
decifrada.
Podias amar concretamente esta dolorosa,
solitária investigação dos interiores,
as malhas soltas da luz.

Porque o mundo é um contínuo acto de costura.
Rompemos com o mistério apenas para
que se teça um mais alto e apaixonante enigma.

Tudo o que nos fulmina, cresce devagar.
Entende-se que seja assim, trôpego, o existir?
Não, não temos uma súbita iluminação,
mas recantos e recantos, penumbras
- e uma voz exausta que vai
morrer.

Vasco Gato - Imo

domingo, 31 de maio de 2009

(…)

Dois corpos.
Dois corpos não carecem de mais do que da fugidia linguagem dos sussurros, dos beijos que eriçam a pele, dos arquejos que preparam a doce deflagração de um amplexo. O idioma topográfico da epiderme transpirada é o único que importa – o único que é preciso dominar quando não se trafica mais do que o amor. Que diferença faz se esses dois corpos não são capazes de se entender plenamente utilizando o vago código das palavras? Que importa a gramática de raiz latina quando duas bocas estão demasiado próximas para que qualquer vocábulo possa ser dito?
Será esta comunicação sem regras aquilo a que chamam paixão? Será o verdadeiro amor aquele que as palavras não macularam ainda? Sabem estes amantes que todo o tempo do mundo é mais tempo do que uma eternidade? Que ao dizerem “para sempre” não exprimem mais do que a fugacidade de um fósforo que já começou a arder?

(…)

Que magia fez com que nos amássemos? Que poderosa vibração nos atirou para a temerária fronteira onde descansam os deportados da terra onde se não pode amar de mais, onde se não crê na possibilidade de amar excessiva, insanamente. Lembras-te? lembras-te de ter dito que não há outro modo de gostar que não seja este, desabrido, e que não acredito que ao resto se possa chamar amor? Que só ama quem gosta à maneira antiga, fora de moda; os que escrevem cartas, os que cultivam olheiras, os que sofrem loucamente e são capazes de morrer de amor. Tu sorrias. Sorrias com aquele teu sorriso leve, feliz e pálido – sorriso de quem sabe que toda a felicidade é passageira, de quem pudesse ler no pouco que dizia o muito que queria dizer.

(…)

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.

(…)

Dizias que
- Quando penso em ti vejo-te com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes. Às vezes tens os olhos fechados e estás a dormir, mas o que interessa é que é assim que eu penso em ti: com a cabeça pousada nos meus joelhos, quieto, enquanto passo a mão, devagar, pela escova mole dos teus cabelos.
Lembras-te?
O meu cabelo já não é uma escova mole. Não te direi sequer, como então, que a sinceridade dos meus sentimentos é uma coisa passageira. Apenas que ainda me agrada a ideia de ser recordado assim. Que ainda sou, se me quiseres, o teu
- Piú grande amore del mondo.
Lembras-te?
O meu cabelo já não é uma escova mole. Mas eu sou um velho parvo, amor.


Manuel Jorge Marmelo – O Amor é para os parvos

sábado, 30 de maio de 2009

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Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.
Ouviu: - Não fujas. Não esqueças.
Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.


Filipa Leal - A INEXISTÊNCIA DE EVA

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domingo, 24 de maio de 2009







sábado, 9 de maio de 2009

O destino

Diria facilmente que o destino é uma imagem retirada do domínio geográfico, o da separação das águas – o famoso continente dividido a partir do qual, nos Estados Unidos, certas águas partem para o Pacífico e outras para o Atlântico. Por essa divisão, num determinado momento, dois elementos separam-se irreversivelmente, segundo parece, e não mais voltarão a juntar-se. A separação é definitiva. Qualquer coisa ganha forma de existência, qualquer coisa não a toma – e o que não nasceu ao mesmo tempo tornar-se-á noutra coisa, e assim permanecerá.
O destino seria uma forma de separação definitiva e irreversível. Mas uma espécie de reversibilidade que faz com que as coisas separadas permaneçam ainda cúmplices. O ultramicrofísico fala ao mesmo tempo da separabilidade e da inseparabilidade das partículas. Para lá de como se afirmam, e muitas divergem definitivamente, cada partícula permanece ligada e conectada à sua antipartícula. Não saberei levar muito longe esta comparação, mas sem dúvida que ela nos dá bem conta do que se revela como destino na tragédia, onde é a forma do que nasce e do que morre sob o mesmo signo. E o signo que conduz à vida e à existência é também o mesmo que conduz à morte. Portanto, será sob o mesmo signo fatal que as coisas começam e acabam. É o sentido dessa célebre história que é a morte em Samarcanda… Na praça de uma cidade, um soldado vê a morte fazer-lhe um sinal, fica cheio de medo, vai ter com o rei e diz-lhe:”A morte fez-me um sinal, eu fugi para o mais longe que pude, fui ter a Samarcanda”. O rei convoca a morte para lhe perguntar porque tinha amedrontado o seu capitão. E a morte responde-lhe:”Não lhe quis meter medo, mas queria apenas lembrar-lhe que esta noite temos encontro em Samarcanda”. O destino revela assim uma forma de certo modo esférica: quanto mais se distancia de um ponto, mais dele se aproxima.
O destino não tem a bem dizer certas “intenções”, mas por vezes temos a impressão de que enquanto se desenrola uma vida de glória e de sucesso, em qualquer parte, obscuramente, um dispositivo trabalha ao contrário e faz escurecer, de forma imprevisível, a euforia no drama. O acontecimento fatal não é o que se pode explicar por diversas causas, é antes aquele que, num dado momento, contradiz todas as causalidades, que chegam de algum lado, mas possuem esse destino secreto. Assim, podemos encontrar certas causas na morte de Diana e procurar reduzir o acontecimento a essas causas. Mas trata-se sempre de um álibi convocar as causas para justificar os efeitos: não se esgotará dessa forma o sentido ou o não-sentido de um acontecimento. Ora, neste caso, o que constitui o acontecimento é um retorno do positivo em negativo, essa mudança que faz com que, quando as coisas se mostram muito favoráveis, tornam-se funestas, como se despontasse em silêncio uma força sacrificial colectiva. O destino é sempre o princípio de reversibilidade em acto. Neste sentido, diria que o mundo nos pensa, não através de uma forma discursiva, mas ao invés, contra todos os nossos esforços para o pensar a seu respeito. Cada um de nós poderá encontrar facilmente alguns exemplos, porque mesmo nas próprias coincidências existe toda uma arte. Quando a psicanálise fala de lapso, de substituição de palavras como a palavra espírito, isso deriva também de uma arte da coincidência: num dado instante existe uma sedução estranha entre os significantes e é isso que torna psíquico o acontecimento.
Mas eu imaginaria facilmente, como o oposto desse universo por inteiro informatizado, que nos permite ver ou prever, um mundo em que não houvesse mais coincidências. Um mundo assim não seria um mundo do acaso e da indeterminação, mas um mundo do destino. Sim, todas as coincidências se revelam de alguma forma predestinadas e impor-se-iam ao destino, ao que tem uma clara finalidade, o destino, ou seja, o que possui um destino secreto, uma predestinação, sem um sentido religioso. A predestinação diria: determinado momento está predestinado a um outro, esta palavra a uma outra, como num poema em que sentimos que as palavras tiveram sempre tendência para se juntarem.
Do mesmo modo, na sedução existe uma forma de predestinação: entre o feminino e o masculino, não penso que haja apenas uma relação diferencial, mas existe também uma forma de destino. Estamos sempre destinados ao outro, é uma troca, uma forma dual e não, contrariamente à concepção que geralmente se tem, um destino individual. O destino é essa troca simbólica entre nós e o mundo que nos pensa e nós pensamos, em que têm lugar essa colisão e essa colusão, essa telescopagem e essa cumplicidade das coisas entre si.
Reside aí pois o crime e a dimensão trágica. A punição é infalível: existirá uma reversibilidade que fará com que alguma coisa de si seja vingada. Canetti declara:”A vingança não é só o desejo de a querer, mas ela far-se-á e faz-se automaticamente pela reversibilidade das coisas”. Tal é a forma do destino.

Jean Baudrillard – Palavras de Ordem

quarta-feira, 6 de maio de 2009

o mergulho de profundidade não deve ser confundido com a introspecção. apesar de o seu objectivo ser o mesmo: o corpo profundo, afundado. o objectivo não é reflectir sobre os objectos submarinos, trazê-los à superfície, para depois os analisar, com os instrumentos. extrovertidos. nas mãos fantasmas; mas afundarmo-nos num leito de destroços. e não contar a ninguém o que vimos. nas planícies. que se prolongam sob a abóbada da pele nocturna. e virmos à superfície por ar. apenas quando ardem os pulmões.

Tiago Araújo - FÓRMULAS

sábado, 18 de abril de 2009


um dizer ainda puro

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato – Um mover de mão

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
à passagem do tempo. A juventude é um vício
que perdemos inevitavelmente. Dizes: é breve o amor,
efémera a vida.

Somos uma estância museológica,
algo anacrónico que aprende a perdurar por medo
de morrer. Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvida, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

Basta-me que o teu olhar me encontre.

José RuiTeixeira – Para Morrer

quarta-feira, 8 de abril de 2009



somos iguais em todas as metamorfoses, percorremos os mesmos lugares. a cidade cansou-nos gota a gota de um anestésico perfeito e não queremos partir. estamos suspensos numa teia tecida com cabos de aço que nos ligam a pessoas e edifícios. deslocamo-nos pela tensão de uns cabos sobre outros, num ritmo não natural, como o de uma marioneta que se cria a si própria. estamos sentados na cama, com a mala ainda vazia dos objectos espalhados pelo quarto, a sensação de que não chegaremos a partir e de que já só podemos ser diferentes noutro lugar.

Tiago Araújo - Livre Arbítrio


sábado, 4 de abril de 2009



queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro sena-lino – zona de perda livro de albas

terça-feira, 31 de março de 2009



Assim se despedem os pássaros do Inverno
Sepultam uma terrível palavra no teu sangue
E guardam silêncio sobre tudo o que lhes foi revelado.

Luís Falcão – Pétalas negras ardem nos teus olhos

sábado, 14 de março de 2009



eu sei: o medo é um mover contíguo à inocência onde
continuamente morremos
como pequenos pássaros fugitivos
basta ler nos teus olhos que as estações são lugares
de passagem e quem as habita será sempre
um estranho que colhe magnólias dos carris


isabel coelho dos santos – o tempo mais puro

domingo, 8 de março de 2009



ETERNIDADE

Faço com as mãos
o destino das coisas
que me cercam

Tomando devagar o tempo incerto
Quebro e desarrumo

Perco


Maria Teresa Horta - Destino

terça-feira, 3 de março de 2009


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"O livro que é feminino reveste-se de um ondeamento. Coloco a mão sobre ele, e o meu contacto é directo. O livro que é masculino atrai igualmente a minha mão, mas contenho-me um pouco porque ela fica a oscilar num gesto que não entendo."

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Maria Gabriela Llansol - Amigo e Amiga (curso de silêncio de 2004)

sábado, 28 de fevereiro de 2009


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(MESMO QUE AS TUAS VEIAS GELEM)


Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo,
na orla infinita da tua mão,
no teu ombro, que é uma espada.
Na tua língua, que é a minha.
Só o teu coração saberá
se é
promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.

Lourdes Espínola – As Núpcias Silenciosas
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Começo as manhãs de branco
e não sei nada

costurando pedaços separados
como será o fio dos dias
os orifícios do espaço
abertos como tempos cercados?

no abraço interno doce deitado
não sei nada


Na memória dos pássaros – Graça Magalhães
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sábado, 31 de janeiro de 2009


O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume. Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão. Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica - nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante.

Faíza Hayat – O Evangelho segundo a serpente

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